quarta-feira, janeiro 19, 2005

Divina Aduana - Parte 3

Hugo mau sabia se podia acreditar no lugar aonde estava. O branco, o papo de Igreja, a morte. O céu estaria um pouco não-romanceado, se fosse verdade. Mas estariam eles todos realmente no céu?

- Hugo Menezes Castro Filho, 48 anos, brasileiro.
- Sim, sim - a mesma ladainha, pensava.
- Sua identificação terrena e sua ficha preenchida, por favor?
- Aí está.
- Hm, ok. De acordo com os registros, está tudo certo. Pegue este cartão e siga para o corredor dezoito. De lá, será orientado aos próximos passos.
- Certo, obrigado.

Segurando um cartão de plástico azul claro, Hugo tentava não imaginar o que viria pela frente. No cartão havia apenas linhas fracas, mas nada inscrito além de um pequeno sinal no canto inferior direito. Pareciam pequenas asas, mas nada concreto.
Encontrando o corredor dezoito, se dirigiu devagar e cuidadoso. Cada passo parecia levá-lo cada vez menos longe. Chegando ao guichê de entrada, encontrou uma pequena máquina com uma tela de cristal líquido e um encaixe do tamanho exato de seu cartão.
Fazendo o óbvio, colocou o cartão no encaixe e o apertou levemente. A luz azulada da máquina atravessou o cartão e o iluminou, de maneira que Hugo pôde ver letras se formando no cartão. Cada vez mais nítido, até que completamente visível:

"Hugo, IC: 349 9439 2005 - 01
Corredor: 18"

O que seria IC? Não entendendo muita coisa, Hugo viu sua passagem livre e seu cartão empurrado levemente pra fora da máquina, que emitia um barulho agudo e fanho. Pegando a identificação azul ele foi em frente com o receio de um cego em um lugar desconhecido.
Ao passar do guichê, se viu no que parecia ser uma estação de trem comum, porém branca. Ao se aproximar do vão, viu que não havia trilhos.

- Senhor, que trem eu pego?
- Deixe-me ver, aqui. Hm, sim sim. O senhor deve ir ao trem azul, no fim da estação à esquerda.
- Ah, obrigado.

Cortesia no céu era o que não faltava, é claro. Até porque este era um dos requisitos pra se chegar ali em cima. Teriam os trabalhadores celestiais vivido uma vida comum como a sua? Se sim, como teriam alcançado um posto com os anjos? Mais dúvidas que idéias ocupavam-lhe a cabeça.
Chegando ao fim da estação, viu à sua esquerda um único trem, cor de chumbo. Incrivelmente, ele não tocava o chão. Parecia sobrevoar graciosamente, mesmo com sua aparência corpulenta e pesada. Entrando, encontrou vários quartos numerados e pouco movimento.

- Moço, estou meio perdido...
- Ah, normal. Deixe-me ver seu cartão.. Ah sim. Quarto número 94; fica à direita, por aqui.

Suas informações pareciam estar todas no pequeno cartãozinho que lhe foi dado minutos antes. O tal "IC" lhe servira mais que seu CPF em cinco minutos!

Seu quarto era o que ele imaginava. Em tons de branco e cores claras, era pouco decorado, porém com aparência fina. Tinha poltronas às bordas, como um quarto de trem normal. Uma mesa de centro suportava um vaso de rosas brancas e um pote pequeno com amendoins ainda com casca. Nas paredes, dois quadros que lhe pareceram bonitos, nada mais.

- Hm, Rembrandts.

Adorava fazer comentários sobre arte em voz alta. Se sentia um pouco mais culto, embora não soubesse nada sobre coisa alguma.

- Desculpe-me a discordância, mas não posso deixar o senhor pensar que isto são Rembrandts - a voz veio de trás. Parecia aveludada, porém firme.

Virando-se de costas, Hugo avistou uma mulher nos seus quase quarenta anos. Tinha os cabelos castanho escuros, ondulados e brilhosos. Os olhos eram verdes, quase cor de mel. Chamou-lhe a atenção a boca bem desenhada, com batom marrom-esverdeado; dava-lhe um toque sutil de beleza serena, sóbria. Tinha um quê de francesa, mas parecia familiar a ponto de ser brasileira.

- Ah, hm... Não entendo muito sobre estas coisas, sabe..
- Não há problema algum. São obras de Antoine Gaber, impressionista contemporâneo. É comum a confusão de suas obras com as de Renoir, da metade do século XIX. Mas temo-lhe informar, não há semelhança com qualquer obra de Rembrandt. Ele fazia mais auto-retrato, sabe..
- Sim sim, obrigado pela aula, madame. A senhora seria?
- Senhorita, por favor. Cecília Cavalcanti de Bragança.
- Seria Bragança da família real?
- Sim, seria - o orgulho que acompanhava o nome nunca lhe fora tirado - a família real sim senhor. E o senhor seria?
- Hugo. Só Hugo está bom.

Os momentos de constrangimento foram seguidos da descoberta de que seriam companheiros de quarto no trem. Felizmente, logo a conversa fluiu sobre os diversos assuntos que passaram por arte e cinema e invariavelmente chegaram à dada situação de todos ao redor.

- O trem parte em cinco minutos, pessoal - o aviso foi dado por uma espécie de alto-falante, porém não se via daonde o som vinha.

As luzes se apagaram por três segundos e quando reacenderam, um show parecia ter começado. O trem, via-se até de dentro, tinha adquirido uma luz azul ofuscante e reluzente. Parecia estar sendo iluminado por vários holofotes gigantes. A estrutura toda subiu uns dez centímetros e vagarosamente iniciou o movimento. Ao quebrar a inércia inicial, a velocidade foi aumentando de maneira suave e agradável. Da janela via-se a estação se distanciando e uma floresta escura ao longe se aproximando. As nuvens declaravam chuva. Se eles estavam no céu, como haveria outro mundo inteiro ali? Seia o céu outra "Terra" igual? Haveria céu no céu? O trem apenas aumentava sua velocidade, sem ruídos ou turbulências quaisquer.

----------------------------------... Continua ... ------------------------------------

terça-feira, janeiro 04, 2005

Divina Aduana - segunda parte

- Meu senhor, temos o prazer de lhe anunciar que o senhor tem uma ficha quase limpa.
- Ah, obrigado minha cara. Sirvo ao próximo e abracei ao sacerdócio quando criança.
- Muitos poderiam aprender com isto. Obrigado. Próximo!

Ainda fitando o infinito, sentiu um empurrão por trás. Era a sua vez. Era a hora de descobrir o que era tudo aquilo.

- Senhor Hugo Menezes Castro Filho, 48 anos, brasileiro.
- Sim, sou eu.
- Sua identificação terrena e sua ficha preenchida, por favor?
- Carteira de identidade? Tenho aqui. Não ganhei ficha, moça. Tinha que ter uma ficha?
- Certo, certo. Mais um desavisado. Senhor, o pós-vida o espera, ande logo e pegue uma ficha com estes homens ali - e apontava para a esquerda de Hugo.
- Ahm, certo, certo.

Desnorteado com a expressão pós-vida, ele titumbeou até o fim da sala. Pegou uma ficha e uma caneta, e procurou em vão algum banco ou cadeira. A sala era completamene branca e vazia! Apoiando a folha na parede, começou a preencher os dados. Nome, idade, RG e CPF. Filiação, local de nascença. Sexo, endereço, email, motivo de morte. Motivo de morte?!? Ao reler pela terceira vez e certificar-se que estava mesmo lendo aquilo, foi de encontro a um homem baixinho de jaleco branco, com cara de responsável pelas fichas.

- Senhor, eu morri?
- Hehehe - a risada era desconfortante - lá vamos nós de novo.
- Você sabe, senhor, a vida não dura pra sempre. Por motivos quaisquer, um dia ela acaba, sabe. E quando ela acaba, o armazenamento do espírito de cada um é responsabilidade da nossa empresa. Com certeza o senhor se lembra o motivo de sua passagem, certo? Sofria de alguma patologia letal? Tinha hábitos radicais? Pense.

Hugo só se lembrava de estar em seu carro, em uma rodovia quase vazia. Um vulto enorme e escuro se aproximava. Sim! Um caminhão! Agora ele lembrava.

- Foi um acidente de carro! Me lembro nitidamente.
- Muito bem. Então preencha rápido que o trem logo parte, senhor.
- Mas trem praonde?

Era tarde. O senhor havia sido chamado por outro baixinho de jaleco, que controlava as catracas que davam acesso ao trem. Seriam eles todos levados pro céu? Estaríam já no céu? Melhor preencher a ficha antes de divagar.

Já de volta à fila, parecia mais calmo. Ouvia as conversas mais nitidamente, distinguia os sons. Um tumulto se formou dois guichês à sua direita, e se esticando ele pôde ver.

- Senhor, desculpe lhe informar, mas... não toque em mim!
- Moça tu não sabe, eu tenho que entrar de qualquer jeito!
- Por favor, acompanhe os senhores à sua direita.
- O que? Não! Eles me levam direto pra fora! Não!

Dois brutamontes com cara de seminaristas o seguraram pelos braços. Aos gritos, tentava inutilmente revidar. Atravessaram sem piedade uma porta ao lado da Sala Intermediária. Àcima dela, os dizeres: Subsolo.

- Cara, esse aí vai pecisar de protetor solar. Lá embaixo deve ser quente, cara.
- Quê? Lá embaixo seria.. não pode ser!
- Próximo!


.................... Continua ................

Divina Aduana - primeira parte

Por muitos séculos e cada vez mais, a discussão sobre a ciência e a religião se confrontando é constante. Os argumentos quase nunca mudam, e os cegos e levianos partidários são levados por correntes que nem eles sabem quais são. Neste emaranhado de teorias, uma coisa é certa: não temos como saber quem está certo ou não. Talvez muitos crédulos tenham se decepcionado, e vice-versa.


---------------------------------------------

Hugo abriu os olhos e tentou mantê-los abertos, mas a claridade não o deixava. Ele não se lembrava se estava dormindo, o que tinha acontecido. Aos poucos foi se acostumando com o ambiente claro, e sentou-se. Viu que estava em um chão branco, em uma sala pequena e vazia. Paredes e teto brancos, uma luz que vinha não sabe-se de onde, também branca. Uma única e enorme porta logo à sua frente (surpresa: branca!) parecia pesada.

Ficou de pé e sentiu-se tonto, perdido. A velha labirintite nunca o abandonava. Nem teve tempo de se familiarizar com o quarto, a porta abriu-se e o que parecia impossível aconteceu: uma luz ainda mais clara veio de fora, ofuscando qualquer imagem. Hugo se aproximou da porta e quando a ultrapassou, se viu em uma sala grande, com pé direito até perder de vista. Vários guichês de vime branco com várias secretárias enchiam o lugar. As filas eram organizadas e o silêncio era incrível, dado o número de gente no enorme pavimento.

Ainda perdido, observou os cartazes e banners logo àcima de sua cabeça:

GRÁVIDAS E CRIANÇAS DESACOMPANHADAS - Estava escrito nos primeiros três guichês

ADULTOS - Era acompanhado de flechas para todos os outros, onde as filas eram bem maiores.

Corretor de seguros há trinta anos, Hugo não sabia o que era estar perdido. Sua vida não corria riscos, não tinha nada de emocionante há décadas. Já havia se acostumado com a rotina e a vida pacata no subúrbio Soteropolitano onde vivia. Era quente, sim, mas as mulatas e os turistas em busca de nova moradia o ajudavam a manter o bom-humor.

- Com licensa, senhor. O senhor está em uma passagem de regulares.
- O quê? - Agora mesmo ele não entendia.
- Uma passagem de regulares. O senhor já foi entrevistado e fichado?
- Ahm? Quê? Não, não, ainda não.
- O trem parte em vinte minutos, se apresse.

Tentando fazer o óbvio, se dirigiu para a menor fila e esperou. À medida que ia se aproximando, tentou descobrir o que haveria de responder, sobre o que seria a tal entrevista. Esticou a ponta dos pés, mas só viu a secretária por trás do guichê com os óculos tortos e cabelos cacheados. O som da conversa foi aumentando, e Hugo pôde enfim ouvir algum rumor:

- E o senhor afirma ter ido à missa nos citados dias?
- Sim sim, tenho certeza.
- Bom, o calendário garante que não. Melhor não tentar burlar o sistema, senhor; ele é à prova de falhas.
- Ok, madame. Mas eu lhe garanto que fui à Igreja nestes dias.

O que se passava não era compreensível, mas a ligação com religião era irrefutável. O que teria este ambiente todo a ver com isso? Hugo não era religioso, apesar de ter sido batizado, catequizado e crismado como todo garoto de sua idade crescendo na Bahia. O suor em seu rosto era frio, estava irriquieto.

- Certo, certo. Mas estas folhas não mentem, senhor. Suas mentiras estão listadas aqui, e não são poucas.
- Quem imaginaria que viríamos aqui? Minhas amigas Onça pintada e Garoupa não podem ajudá-la? - dizia o jovem de terno passado, em uma frustrada tentativa de suborno
- Senhor, peço-lhe que acompanhe aqueles homens ali, por favor. O próximo?

O tal espertinho foi segurado pelos braços e levado por uma porta pequena e levemente mais escura. Logo àcima da porta, lia-se: Sala Intermediária.

Hugo não se aguentava de ansiedade e medo. Uma teimosa imagem não lhe saía da cabeça, piorando a situação. Nela, o que não era incompreensível pelo exagerado movimento era escuro e sombrio. Distinguia apenas o local, uma rua não muito movimentada perto de Salvador. Parecia estar dentro de um carro, cada vez mais clara a imagem. Os rostos eram irreconhecíveis...


.........Continua.................

domingo, janeiro 02, 2005

Começo, meio e... - parte 2

Quem gostaria de ser imortal? Quem acharia graça em não ter noção real de tempo, já que o tempo não teria fim? Ou então este tempo sem fim seria a tal noção real de tempo, já que não haveria outra. Certo? Não temos como saber. Teríamos, isto é certo, vários ditados a menos pra contar.

"Não perca seu tempo" - Tempo perdido seria um conceito ultrapassado, ao meu ver. O tempo não se perderia, já que não teria pra onde ir. A não ser que as viagens por dimensões se tornassem reais, e isto é papo pra outra história.

"Não deixe pra amanhã o que você pode fazer hoje" - Hoje, amanhã, daqui há mil anos... Não interessa! Não existe premissa de fim, se realmente não há um fim!

Para os mais aficcionados: até a religião - sim, ela mesma - tem suas raízes fincadas nos pilares de salvação e paz pós-vida. A Igreja tem seu dinheiro e seus bens graças aos milhares de lugares no céu vendidos nos séculos passados. Há histórias de albergues divinos, inventados pro conforto dos novos cristãos, que cheios de alegria despejavam seus magros salários a fim de evitar as filas do purgatório. Mas isso também é papo pra outra história.

A psicologia explica o medo da morte como a consciência do fim das coisas boas da vida. O ser humano, no dado estado de evolução social, pensa sobre as vantagens apenas quando as perde - ou quando se vê encurralado a perdê-las. Caso fôssemos imortais, não haveria a consciência de morte, tampouco o conceito de aproveitar a vida. Teríamos mais tempo pra coçar o saco do que pra realmente fazer qualquer coisa.

Carpe Diem, é o que diz Robin Williams na sociedade dos poetas mortos. Aproveite o máximo do seu tempo. Mas se seu tempo não tem fim, como aproveitá-lo mais ou menos? O próprio tempo seria alargado até o perdermos de vista.

Como seria nossa evolução fisiológica? Talvez seríamos como o Highlander, adultos pra sempre. Talvez fôssemos envelheceno gradualmente, é o mais lógico. Mas logo não haveria mais espaço pra novas rugas no rosto, e o coração não poderia bater mais e mais devagar. De uma maneira ou outra, o fim é algo necessário.

Nossa obrigação vai muito além de nascer, crescer, nos reproduzir e morrer. Até porque a vida seria um pé no saco, se só pudéssemos fazer estas quatro coisas. Mas a cronologia envolve necessariamente um fim na vida de todo mundo. Então, que assim seja e que parem de reclamar. Se for pra discutir, ao menos que saiba o que diz!


Leonard Schmitz