Divina Aduana - Parte 3
Hugo mau sabia se podia acreditar no lugar aonde estava. O branco, o papo de Igreja, a morte. O céu estaria um pouco não-romanceado, se fosse verdade. Mas estariam eles todos realmente no céu?- Hugo Menezes Castro Filho, 48 anos, brasileiro.
- Sim, sim - a mesma ladainha, pensava.
- Sua identificação terrena e sua ficha preenchida, por favor?
- Aí está.
- Hm, ok. De acordo com os registros, está tudo certo. Pegue este cartão e siga para o corredor dezoito. De lá, será orientado aos próximos passos.
- Certo, obrigado.
Segurando um cartão de plástico azul claro, Hugo tentava não imaginar o que viria pela frente. No cartão havia apenas linhas fracas, mas nada inscrito além de um pequeno sinal no canto inferior direito. Pareciam pequenas asas, mas nada concreto.
Encontrando o corredor dezoito, se dirigiu devagar e cuidadoso. Cada passo parecia levá-lo cada vez menos longe. Chegando ao guichê de entrada, encontrou uma pequena máquina com uma tela de cristal líquido e um encaixe do tamanho exato de seu cartão.
Fazendo o óbvio, colocou o cartão no encaixe e o apertou levemente. A luz azulada da máquina atravessou o cartão e o iluminou, de maneira que Hugo pôde ver letras se formando no cartão. Cada vez mais nítido, até que completamente visível:
"Hugo, IC: 349 9439 2005 - 01
Corredor: 18"
O que seria IC? Não entendendo muita coisa, Hugo viu sua passagem livre e seu cartão empurrado levemente pra fora da máquina, que emitia um barulho agudo e fanho. Pegando a identificação azul ele foi em frente com o receio de um cego em um lugar desconhecido.
Ao passar do guichê, se viu no que parecia ser uma estação de trem comum, porém branca. Ao se aproximar do vão, viu que não havia trilhos.
- Senhor, que trem eu pego?
- Deixe-me ver, aqui. Hm, sim sim. O senhor deve ir ao trem azul, no fim da estação à esquerda.
- Ah, obrigado.
Cortesia no céu era o que não faltava, é claro. Até porque este era um dos requisitos pra se chegar ali em cima. Teriam os trabalhadores celestiais vivido uma vida comum como a sua? Se sim, como teriam alcançado um posto com os anjos? Mais dúvidas que idéias ocupavam-lhe a cabeça.
Chegando ao fim da estação, viu à sua esquerda um único trem, cor de chumbo. Incrivelmente, ele não tocava o chão. Parecia sobrevoar graciosamente, mesmo com sua aparência corpulenta e pesada. Entrando, encontrou vários quartos numerados e pouco movimento.
- Moço, estou meio perdido...
- Ah, normal. Deixe-me ver seu cartão.. Ah sim. Quarto número 94; fica à direita, por aqui.
Suas informações pareciam estar todas no pequeno cartãozinho que lhe foi dado minutos antes. O tal "IC" lhe servira mais que seu CPF em cinco minutos!
Seu quarto era o que ele imaginava. Em tons de branco e cores claras, era pouco decorado, porém com aparência fina. Tinha poltronas às bordas, como um quarto de trem normal. Uma mesa de centro suportava um vaso de rosas brancas e um pote pequeno com amendoins ainda com casca. Nas paredes, dois quadros que lhe pareceram bonitos, nada mais.
- Hm, Rembrandts.
Adorava fazer comentários sobre arte em voz alta. Se sentia um pouco mais culto, embora não soubesse nada sobre coisa alguma.
- Desculpe-me a discordância, mas não posso deixar o senhor pensar que isto são Rembrandts - a voz veio de trás. Parecia aveludada, porém firme.
Virando-se de costas, Hugo avistou uma mulher nos seus quase quarenta anos. Tinha os cabelos castanho escuros, ondulados e brilhosos. Os olhos eram verdes, quase cor de mel. Chamou-lhe a atenção a boca bem desenhada, com batom marrom-esverdeado; dava-lhe um toque sutil de beleza serena, sóbria. Tinha um quê de francesa, mas parecia familiar a ponto de ser brasileira.
- Ah, hm... Não entendo muito sobre estas coisas, sabe..
- Não há problema algum. São obras de Antoine Gaber, impressionista contemporâneo. É comum a confusão de suas obras com as de Renoir, da metade do século XIX. Mas temo-lhe informar, não há semelhança com qualquer obra de Rembrandt. Ele fazia mais auto-retrato, sabe..
- Sim sim, obrigado pela aula, madame. A senhora seria?
- Senhorita, por favor. Cecília Cavalcanti de Bragança.
- Seria Bragança da família real?
- Sim, seria - o orgulho que acompanhava o nome nunca lhe fora tirado - a família real sim senhor. E o senhor seria?
- Hugo. Só Hugo está bom.
Os momentos de constrangimento foram seguidos da descoberta de que seriam companheiros de quarto no trem. Felizmente, logo a conversa fluiu sobre os diversos assuntos que passaram por arte e cinema e invariavelmente chegaram à dada situação de todos ao redor.
- O trem parte em cinco minutos, pessoal - o aviso foi dado por uma espécie de alto-falante, porém não se via daonde o som vinha.
As luzes se apagaram por três segundos e quando reacenderam, um show parecia ter começado. O trem, via-se até de dentro, tinha adquirido uma luz azul ofuscante e reluzente. Parecia estar sendo iluminado por vários holofotes gigantes. A estrutura toda subiu uns dez centímetros e vagarosamente iniciou o movimento. Ao quebrar a inércia inicial, a velocidade foi aumentando de maneira suave e agradável. Da janela via-se a estação se distanciando e uma floresta escura ao longe se aproximando. As nuvens declaravam chuva. Se eles estavam no céu, como haveria outro mundo inteiro ali? Seia o céu outra "Terra" igual? Haveria céu no céu? O trem apenas aumentava sua velocidade, sem ruídos ou turbulências quaisquer.
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1 Comments:
Léo.
Não vou parar de te dizer isso, continua a escrever sempre, e não para nunca, sempre que pensares nisso lembra de mim, mais acho dificil tu querer parar depois de tantos elogios né.
Teus textos e historias são as melhores, inteligentes e interessantes, não cansei nem um pouco de ler isso daqui inteirinho.
Me desse vontade de voltar a ler como antes e até de escrever um pouco mais, pena que eu não tenho o dom né.
Mas pode deixar que melhor que tu eu não vou conseguir ser!
Boa sorte Léo.
e to esperando os vários livros!
Te adoro.
Beijão Jú
:*
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