Livro. Livro-me? Livre!
- Mãe, eu quero esse!O rosto fechado da mãe contrastava com o barulhento e colorido ambiente. Braços cruzados, cara amarrada; era difícil entender a expressão fria diante de tanta animação da filha. Com os olhos brilhando, a garota corria, sem medo de tropeçar nos cadarços desamarrados. O cantinho infantil da feira de livros era um paraíso para ela, que mais olhava figuras que se preocupava em ler o conteúdo carregado pelos livros em suas mãos.
Para onde a pequena garota corria, era acompanhada por irritados passos da mãe, que ignorava olhares pedintes da filha, afinal tinha prometido-lhe apenas um livro. Mal esboçando reação ao ver o sorriso branco e sincero no rosto da criançada, lançava olhares desaprovadores aos pais que pareciam divertir-se mais que os filhos.
Fora criada por pai Sargento e mãe filha de General, não tendo, assim, opinião própria sobre nada. Sua leitura era sempre forçada e os livros, inadequados. Cresceu odiando francis Bacon e H.G. Wells. Adorava explicações e exemplos na lousa, tudo o que não envolvesse páginas escritas. Teve até pesadelos com bibliotecas e suas pretensões de engoli-la.
Formou-se engenheira e desenvolveu um gosto pético pelos cálculos; na rua, evitava ler placas e letreiros, concentrando todo o seu tempo livre na resolução de problemas metafísicos e culinária. No casamento - quem diria, com um advogado - ganhou ótimos livros raros e caros, que mais tarde renderiam duradoura fogueira. E depois de tanto ódio, via-se cercada por pequenos e ávidos leitores, sem entender tanta correria, tanta alegria.
A filha foi alfabetizada mais cedo que o usual, pelo pai. Foi curiosidade sua, aos tenros quatro anos, saber o que diziam placas de trânsito e jornais que tanto o pai folheava. Aprendeu rápido que a leitura induz o raciocínio e forma opinião, sendo ela a única de sua sala de prezinho a saber quem era Ziraldo. Tinha mais livros que bonecas e não via problema nisso; apenas tomava cuidado para não ler na frente da mãe, pois sabia que iria causar discussão entre os pais. Enquanto ganhava livros semanais do pai, ouvia a mãe suspirar à noite, no quarto:
- Por que ela não vê Tevê como dodo mundo? Por quê?!
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Sendo o último post datado de 1922, acho que já tava na hora de voltar a escrever. Transcrever, em verdade: esse texto é esboço do que viria a ser uma dissertação para o vestibular (ah, os tempos de vestibular). Notem a inocência e os traços infantis no estilo de escrever.
Beijos aos 2 e 1/2 leitores do blog.

8 Comments:
êêÊê! Que me desculpem as outras, mas além de namorada, fui a primeira a comentar! Cof, cof... hehehe
Que bom que você voltou a postar, neném. Agora só falta voltar a escrever. Sei que não só eu, mas seus outros - 1 e 1/2 - leitores também aguardavam ansiosamente por textos novos.
(Ah, aproveita e atualiza o flog também! hehehe)
***=, lindão.
Como deixei só um scrap para agradecer a sua volta, me comprometi em deixar um comentário aqui também! Fiquei feliz em ver nova publicação no seu blog, a partir do meu toque! Eu realmente acho que vc não deve disperdiçar suas boas idéias e dentro da dua disponibilidade escrever sim e disponibilizar para seus leitores (fãs) a leitura de seus criativos textos. É isso! ;)
"Notem a inocência e os traços infantis no estilo de escrever."
isso foi ano passado não, Édipo?
Bom texto, leonard.
mas não renegue sua idade!
Olá, Leonard.
Por meio de algumas pesquisas para um trabalho que estou fazendo, cheguei até o seu blog num post de 17/10/2004, onde você faz referência a um encontro de ilustres num bar -- que você chama de botecchio:
"Mal sabiam os assíduos freqüentadores do Botecchio - infame brincadeirinha de raízes italianas, típica dos paulistanos da década de 60 - que à mesa 09, junto à porta de entrada, estava reunido um grupo de velhos amigos que muito tinham a conversar. Antonio, Fransisco, Vinícius e Pecci (que também era Antonio, chamado pelo sobrenome pra evitar confusões) tinham o ritual do encontro às quartas à noite."
Eu estou precisando muito de mais informações sobre que bar é esse, onde fica, se existe ainda etc. etc. etc.
Você pode me ajudar, por favor?
Abraço e até mais.
Luciano
luciano@psestudio.com.br
Vamos identificar os comentários, se forem abusivos.
e pode bater de frente.
eu levo soco, caio no chão..
mas...
viro a cara pra outro.
"Cresceu odiando francis Bacon e H.G. Wells. Adorava explicações e exemplos na lousa, tudo o que não envolvesse páginas escritas. Teve até pesadelos com bibliotecas e suas pretensões de engoli-la."
ótima, Leo
:)
alias
voltei a publicar recentemente também, vamos os dois, começar meio que do zero então.
grande abraço, gosto muito do Blog, sabes disto, não faça doce, seu puto
...!
ps.: Francis Bacon = Chico Toicinho
pretendo atualizar diariamente agora
(eu sei, eu sei, prometo isso todo ano...)
...!
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