sábado, março 05, 2005

E tudo acaba em ... - parte dois

De todos os conceitos e existências, a única imutável e totalmente é o tempo, certo? Não, é claro que não. Por mais global que possa parecer, o tempo tem contraditoriedades e falsas premissas. O primeiro e mais simples exemplo são os fusos-horários. Assim como o horário de verão, estas intituições puramente comerciais roubam do tempo sua universalidade e incluem nele a tontura de acordar à mesma hora que se foi dormir, por exemplo.

O principal abismo criado pelo tempo são as convenções de calendários. O mundo ocidental há tempos largou o calendário gregoriano para adotar o juliano. A divisão é prática e exige apenas uma inclusão de um dia a cada quatro anos. O oriente, no entanto, nunca foi de seguir qualquer convenção que não a sua própria. Os chineses e japoneses estão muitos anos à nossa frente, tendo em vista que, assim como nós, eles baseiam-se em religião para contar seus anos. O problema é ter que conviver com dois calendários, duas línguas; viver em dois mundos. Qualquer homem japonês de negócios é obrigado a literalmente se desdobrar em dois, seu cérebro programado para ter o dobro de conhecimento.

Toda a discussão de globalização poderia ir muito mais longe, mas o ponto aonde quero chegar é simples. De todos os conceitos - tecnológicos ou culturais - já imaginados, qual simboliza mais corretamente a união entre povos, etnias, culturas e países? É simples. Nada representa mais a adoração mundial do que a verdadeira pizza. Sim, a pizza de comer. Sua história em si já é um exemplo da primeira globalização: um navegador italiano aventurou-se por terras à leste. Lá encontrou especiarias e uma receita de farinha, ovo, água e sal. Voltou à terra-mãe e mostrou aos chefs da bella cucina italiana como fazer a tal massa. Inventada especialmente para a princesa Margheritta, o prato levava queijo, tomate e manjericão, e tinha formato chato e redondo.

Levada por franceses até os Estados unidos, a pizza se popularizou ao longo dos séculos e instituiu a criatividade entre os mestres de cozinha. Doces, salgadas, exóticas ou rústicas, os muitos sabores de pizza são motivo de alegria.

É claro que a receita de massa e cobertura não é igual para o mundo todo. Mas a instituição do conceito 'pizza' é o que une muitas culturas. Tanto novaiorquinos famintos quanto russos no gélido inverno comem a mesma massa com queijo e salame. Tanto franceses quanto ingleses pedem - seja por chicken ou por polle. A única palavra que não sofre qualquer distorção idiomática, seja ela gráfica ou de pronúncia. Não é à toa que se diz que tudo acaba em pizza.

Não importa o nível de adoração por Oprah, todos comem pizza. Não importa seu nível de conhecimento da língua inglesa, todos adoram calabreza ou muzarela. Não faz a mínima diferença o ano e a hora; de 2005 à 4015, das dez às dez, não há quem não veja graça na simples receita japonesa/italiana.

Estamos todos, portanto, presenciando a globalização da pizza. É pizza pra todo lado. Não que isso seja ruim, é claro. Melhor empizzar tudo de uma vez, que ter de aturar a política econômica de abertura logística e incentivo à globalização corporativa - é tanta expressão que ninguém entende.

Sem querer desmerecer qualquer sistema de governo, qualquer instituiçao de respeito ou coisa que os valha, prefiro pizza à organização social. Embora ninguém concorde comigo, duvido quem não espera a sexta-feira para reunir a família e devorar "duas tamanho família". Enfim a pizza serve de união pra tudo e todos.

E que a minha venha sem alho.

---------------------------------------------------------

Leonard Ziesemer Schmitz


PS.: Na seqüência "E tudo acaba em ..." foram excluídos os casos de deficiência mental, onde os sujeitos eventualmente não gostam de pizza - Situação totalmente hipotética e impossível, afinal quem lê o blog é letrado, e letrado algum tem ignorância pra desgostar de pizza.

E tudo acaba em ... - parte um

Vivemos em tempos de mundanças em crescimento geométrico. Há trinta anos as ciências engatinhavam lentamente para frente; hoje elas são corredoras de cem metros rasos. Isso tudo promove a tão badalada globalização corporativa, certo? A interdisciplinaridade entre todos os conhecimentos, a união dos conceitos milenares com as tecnologias recentes.

Na discrepância da relação Imagem/Conteúdo, temos a mídia como sistema controlador e autoritário. A diferença tende a aumentar, isto é fato. Poucos se safam. A maior personalidade da mídia mundial é Oprah Winfrey, negra, mulher, banal. Em seu talk show ela entrevista celebridades em um tom casual, como uma sala de estar doméstica. Sua simpatia e altruísmo fazem com que muitos a amem; criam fanclubes de adoração. Mas nem pra todos ela é assim. Há quem a odeie, a pragueje - em geral os tradicionais críticos intelectuais, que se vêem na obrigatoriedade de contrapor o que é a vontade das massas.

Partindo pra pontos bem mais abrangentes, temos o conceito de linguagem. Nunca uma língua foi tão difundida como hoje. No Japão, por exemplo, nove entre dez pessoas têm fluência suficiente para não passar fome em um país de língua inglesa. Na Europa a comunicação - seja ela para fins turísticos ou oficiais - é normalmente feita na língua nativa do país e em inglês.


Porém nem tal supremacia escapa de falhas, pois quem não tem conhecimento algum de inglês sofre com a exclusão. E há, como sempre, os nacionalistas que teimam em não dar o braço a torcer. Há alguns meses o instituto Itamaraty - que forma os diplomatas brasileiros - deixou de considerar o inglês idioma obrigatório para um diplomata; passou a apenas contar pontos extras, assim como o alemão, francês, italiano. Comparar tais línguas com o inglês é atestado de burrice! A desculpa dada foi infame: tais fatores estariam dando preferências à uma minoria elitista e excluindo os menos abastados. Mas não é exatamente isso que difere um diplomata de um simples bacharel em relações internacionais? Eu acho que é.


---------- Continua ---------------