terça-feira, janeiro 04, 2005

Divina Aduana - primeira parte

Por muitos séculos e cada vez mais, a discussão sobre a ciência e a religião se confrontando é constante. Os argumentos quase nunca mudam, e os cegos e levianos partidários são levados por correntes que nem eles sabem quais são. Neste emaranhado de teorias, uma coisa é certa: não temos como saber quem está certo ou não. Talvez muitos crédulos tenham se decepcionado, e vice-versa.


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Hugo abriu os olhos e tentou mantê-los abertos, mas a claridade não o deixava. Ele não se lembrava se estava dormindo, o que tinha acontecido. Aos poucos foi se acostumando com o ambiente claro, e sentou-se. Viu que estava em um chão branco, em uma sala pequena e vazia. Paredes e teto brancos, uma luz que vinha não sabe-se de onde, também branca. Uma única e enorme porta logo à sua frente (surpresa: branca!) parecia pesada.

Ficou de pé e sentiu-se tonto, perdido. A velha labirintite nunca o abandonava. Nem teve tempo de se familiarizar com o quarto, a porta abriu-se e o que parecia impossível aconteceu: uma luz ainda mais clara veio de fora, ofuscando qualquer imagem. Hugo se aproximou da porta e quando a ultrapassou, se viu em uma sala grande, com pé direito até perder de vista. Vários guichês de vime branco com várias secretárias enchiam o lugar. As filas eram organizadas e o silêncio era incrível, dado o número de gente no enorme pavimento.

Ainda perdido, observou os cartazes e banners logo àcima de sua cabeça:

GRÁVIDAS E CRIANÇAS DESACOMPANHADAS - Estava escrito nos primeiros três guichês

ADULTOS - Era acompanhado de flechas para todos os outros, onde as filas eram bem maiores.

Corretor de seguros há trinta anos, Hugo não sabia o que era estar perdido. Sua vida não corria riscos, não tinha nada de emocionante há décadas. Já havia se acostumado com a rotina e a vida pacata no subúrbio Soteropolitano onde vivia. Era quente, sim, mas as mulatas e os turistas em busca de nova moradia o ajudavam a manter o bom-humor.

- Com licensa, senhor. O senhor está em uma passagem de regulares.
- O quê? - Agora mesmo ele não entendia.
- Uma passagem de regulares. O senhor já foi entrevistado e fichado?
- Ahm? Quê? Não, não, ainda não.
- O trem parte em vinte minutos, se apresse.

Tentando fazer o óbvio, se dirigiu para a menor fila e esperou. À medida que ia se aproximando, tentou descobrir o que haveria de responder, sobre o que seria a tal entrevista. Esticou a ponta dos pés, mas só viu a secretária por trás do guichê com os óculos tortos e cabelos cacheados. O som da conversa foi aumentando, e Hugo pôde enfim ouvir algum rumor:

- E o senhor afirma ter ido à missa nos citados dias?
- Sim sim, tenho certeza.
- Bom, o calendário garante que não. Melhor não tentar burlar o sistema, senhor; ele é à prova de falhas.
- Ok, madame. Mas eu lhe garanto que fui à Igreja nestes dias.

O que se passava não era compreensível, mas a ligação com religião era irrefutável. O que teria este ambiente todo a ver com isso? Hugo não era religioso, apesar de ter sido batizado, catequizado e crismado como todo garoto de sua idade crescendo na Bahia. O suor em seu rosto era frio, estava irriquieto.

- Certo, certo. Mas estas folhas não mentem, senhor. Suas mentiras estão listadas aqui, e não são poucas.
- Quem imaginaria que viríamos aqui? Minhas amigas Onça pintada e Garoupa não podem ajudá-la? - dizia o jovem de terno passado, em uma frustrada tentativa de suborno
- Senhor, peço-lhe que acompanhe aqueles homens ali, por favor. O próximo?

O tal espertinho foi segurado pelos braços e levado por uma porta pequena e levemente mais escura. Logo àcima da porta, lia-se: Sala Intermediária.

Hugo não se aguentava de ansiedade e medo. Uma teimosa imagem não lhe saía da cabeça, piorando a situação. Nela, o que não era incompreensível pelo exagerado movimento era escuro e sombrio. Distinguia apenas o local, uma rua não muito movimentada perto de Salvador. Parecia estar dentro de um carro, cada vez mais clara a imagem. Os rostos eram irreconhecíveis...


.........Continua.................