Atenção, cordeirinhos, Prozac agora também na telona
" The Secret- 2007 EUA / Livre / 92 min / Drama / Legendado: Ao longo da existência da humanidade, um grande segredo foi protegido a ferro e fogo. Homens e mulheres extraordinários o descobriram e não só alcançaram feitos incríveis como também mudaram o curso de nossa história. Platão, Da Vinci, Galileu, Thomas Edison, Beethoven, Napoleão, Abraham Lincoln e Einstein foram alguns dos grandes homens que controlavam a força desse mistério. E agora, após milhares de anos, o Segredo será revelado para todo o mundo. "Você assistiria a um filme sob essa sinopse, não? Eu assistiria; e assisti. Um drama (sim, é o que diz ali) sobre uma suposta mensagem ocultada por toda a evolução da sociedade, miraculosamente justificadora do sucesso profissional dos maiores pensadores da História? Eu tenho que ver isso!
Lotados os assentos do cinema em um Sábado à noite, a ansiedade era suficientemente excitante, logo antes do começo do filme. Quão grande foi, então, a surpresa de todos - todos mesmo - ao descobrir que veríamos um
documentário de auto-ajuda? Os primeiros quinze minutos deram o tom do resto da metragem: o segredo é revelado aos vinte segundos de filme, chamado de "lei da atração". Ela versa sobre como somos donos de nosso próprio destino, e se tivermos apenas pensamentos positivos na mente, o universo vai dar um jeito de retornar alguma contribuição.
É mais ou menos assim: se você pensa sempre coisas ruins (como: não posso chegar atrasado, ou: nunca vou conseguir comprar isto), você irradia uma energia negativa que contagia sua redondeza, impedindo que as coisas boas chegem a você. Uma meia-dúzia de "doutores" em fisiologia, neurologia, e até um visionário (auto-intitulado assim mesmo!) ensinam os expectadores a ter vibrações positivas sempre presentes no dia-a-dia. Lecionavam eles que devemos buscar eternamente a felicidade - sem mencionar que isso é paráfrase cônsona a Aristóteles.
Enquanto acompanhava o monólogo dos "palestrantes" feito um cordeirinho, vi que tinha gente realmente chegando mais perto da tela pra assimilar BEM o que era dito: são o famoso público-alvo. Um homenzinho grisalho dizia: "olhe bem a palma de suas mãos", e os cordeiros olhavam. "Pense em sua maior realização na vida", fantasiava ele: e imagens de carros, colares de brilhantes e mansões apareciam na tela. Fisgados pelo materialismo, estávamos todos.
Por quase duas horas o falatório estendeu-se, invariavelmente implorando a quem assistia que tivesse sempre em mente objetivos do que QUERER, e não reclamações do que NÃO QUERER. O povo parecia anestesiado com aquele
lobby barato sendo enfiado goela abaixo. Relatos e experiências de quem teve sucesso na vida apenas sabendo bem aplicar o "segredo" conferiam suposta credibilidade ao documentário, mas deixavam-no com um jeitão de propaganda de aparelho de abdominal na TV.
Foi pela metade do filme que me passou à cabeça o quanto isso era semelhante a uma religião: um bode expiatório, um placebo onde jogar todas as dores psicológicas enfrentadas quotidianamente. Se você pensar sempre positivo, vai viver sempre feliz - que fórmula babaca; não pensando negativamente nunca, como vamos ter motivo pra ficar pra baixo? É uma ótima maneira de ganhar a vida, no entanto. Fazer um documentário sobre o que todo mundo já sabe há centenas de anos, e dizer que isso é um "segredo" conhecido por Einstein, Edison e DaVinci.
Rodeando o tema central o filme delongou-se além do necessário; uma pílula gigante de placebo genérico sendo homeopaticamente dosado através dos olhos de quem assistia a tudo sentadinho, feito um rebanho obediente. Um
prozac audio-visual vendido a R$6,00 por pessoa. Uma terapia em grupo sem interatividade, só pra ouvir. Uma máquina engenhosa de hipnose e prosperidade monetária. E eu paguei seis reais pra participar disso tudo. Feito um cordeirinho.
Leonard Schmitz
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Cara, MEIO ANO sem postar nada. E sem tempo pra pensar em postar algo, também. De repente eu recrio vontade pra deixar isso mais vivo. Veremos.
Livro. Livro-me? Livre!
- Mãe, eu quero esse!
O rosto fechado da mãe contrastava com o barulhento e colorido ambiente. Braços cruzados, cara amarrada; era difícil entender a expressão fria diante de tanta animação da filha. Com os olhos brilhando, a garota corria, sem medo de tropeçar nos cadarços desamarrados. O cantinho infantil da feira de livros era um paraíso para ela, que mais olhava figuras que se preocupava em ler o conteúdo carregado pelos livros em suas mãos.
Para onde a pequena garota corria, era acompanhada por irritados passos da mãe, que ignorava olhares pedintes da filha, afinal tinha prometido-lhe apenas um livro. Mal esboçando reação ao ver o sorriso branco e sincero no rosto da criançada, lançava olhares desaprovadores aos pais que pareciam divertir-se mais que os filhos.
Fora criada por pai Sargento e mãe filha de General, não tendo, assim, opinião própria sobre nada. Sua leitura era sempre forçada e os livros, inadequados. Cresceu odiando francis Bacon e H.G. Wells. Adorava explicações e exemplos na lousa, tudo o que não envolvesse páginas escritas. Teve até pesadelos com bibliotecas e suas pretensões de engoli-la.
Formou-se engenheira e desenvolveu um gosto pético pelos cálculos; na rua, evitava ler placas e letreiros, concentrando todo o seu tempo livre na resolução de problemas metafísicos e culinária. No casamento - quem diria, com um advogado - ganhou ótimos livros raros e caros, que mais tarde renderiam duradoura fogueira. E depois de tanto ódio, via-se cercada por pequenos e ávidos leitores, sem entender tanta correria, tanta alegria.
A filha foi alfabetizada mais cedo que o usual, pelo pai. Foi curiosidade sua, aos tenros quatro anos, saber o que diziam placas de trânsito e jornais que tanto o pai folheava. Aprendeu rápido que a leitura induz o raciocínio e forma opinião, sendo ela a única de sua sala de prezinho a saber quem era Ziraldo. Tinha mais livros que bonecas e não via problema nisso; apenas tomava cuidado para não ler na frente da mãe, pois sabia que iria causar discussão entre os pais. Enquanto ganhava livros semanais do pai, ouvia a mãe suspirar à noite, no quarto:
- Por que ela não vê Tevê como dodo mundo? Por quê?!
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Sendo o último post datado de 1922, acho que já tava na hora de voltar a escrever. Transcrever, em verdade: esse texto é esboço do que viria a ser uma dissertação para o vestibular (ah, os tempos de vestibular). Notem a inocência e os traços infantis no estilo de escrever.
Beijos aos 2 e 1/2 leitores do blog.
O importante é competir (abaixo de zero)
Torino, 2006. Delegações em casacos de pele, hotéis lotados e gelados, Repórteres cobrindo as orelhas com felpudas luvas, e neve. Muita neve. É o clima divertidamente congelante das olimpíadas de inverno.
Antes de tudo, quero chamar atenção para o mais emocionante dos esportes de inverno: o Curly. É. É a "bocha" com pedras escorregadias e vassouras. As malditas vassouras que não param de se mexer. É um tanto incrível como a monotonia toma conta, durante uma partida. E mais incrível de tudo, ele hipnotiza. Assistindo ao jogo EUA x Rússia, me deparei com minha família inteira sentada ao sofá, opinando as melhores jogadas para tirar uma pedra de perto do centro do alvo, sem prejudicar suas próprias pedras. Por quarenta minutos assistimos a outras partidas, sempre vibrando com as jogadas impecáveis. E as vassourinhas varriam cada vez mais rápido, e mais rápido.
Outra grande modalidade é o "ski n' shoot", como os americanos denominam. É onde os atletas esquiam por alguns kilômetros, param em uma determinada área e atiram em alvos distantes. Aí voltam a esquiar até a próxima parada para uma certeira mira. E assim vai até que alguém decida trocar de canal. Não sei se a idéia foi simular alguma atividade na neve, mas não deu certo. Ninguém quer ver o pessoal esquiando devagarinho e atirando, né? Eu não, pelo menos.
As mais variadas modalidades são "introduzidas" ao conhecimento do público-geral, a cada olimpíada de inverno. O mais famoso deles é o Bobsled, aquele do "Jamaica abaixo de zero". Agora lembrou, né? O Brasil participa dessa modadlidade, é claro! E para tanto, usa corredores e atletas de solo, enjambrados como tripulantes do trenó gelado. É o jeitinho brasileiro em todo - literalmente todo - canto do mundo.
Falando em Brasil, lembro-me do Boarder Cross. Ah, o famigerado e infame Boarder Cross. É a corrida de snowboard, em uma pista com curvas inclinadas e rampas. Foi onde a brasileira Isabel Clark conseguiu a nona (é isso mesmo) posição na classificação geral. Como isso aconteceu? A garra e vontade verde-amarelas se mostraram mais uma vez? É óbvio que não. As comemorações foram extensas e exaustivas e eu não guentava mais ouvir falar dessa bateria que deu à Clark o 9º lugar. Quando vi o replay, no entanto, entendi tudo. As três primeiras corredoras se envolveram em um acidente, deixando caminho livre pra quarta (e última) corredora. Alguma dúvida de que era brasileira? E assim ela correu - ou esquiou - livre para a vitória. Vergonhosa vitória.
Ainda nos board-races, algo que me deixou feliz de tanto rir. Até os últimos metros, uma americana - a publicação de seu nome resultará em abertura de processo, é claro - dominava com vantagem a prova. Estava a poucas rampas do ouro. Rampas grandes. Grandes e largas. Rampas grandes, largas e livres para abuso. Foi aqui que ela se perdeu: no penúltimo grande salto, arriscou um grab-trick (uma manobra bem abusadinha) pra mostrar que, além de rápida, ela tem mandinga. E não foi que, ao tocar na neve, perdeu equilíbrio e caiu? Foi tempo suficiente para a suíça, que ocupava a segunda posição, fazer ultrapassagem e garantir a medalha suprema. Para a americana genérica, a prata. E a desilusão de saber que ela foi arrogante a ponto de ser incompetente. Muito incompetente.
A Itália tem a pizza. Tem as Tartarugas Ninjas. Tem Pininfarina e seu estúdio de design automobilístico. E, agora, tem gente pulando, correndo, patinando, dando pirueta (e até atirando!) na neve e no gelo. Espera-se Montreal 2010, então.
Leonard Schmitz
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Como sempre, demorou mas chegou. Saiu na hora esse, também. COMENTEM, please? Beixocas.
Revolução das Flores - parte 2
(pra ter a noção certa do texto, leia o penúltimo texto publicado, "Revolução parte 1" ok?)
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Por anos estiveram a força-bruta e as vontades machistas àcima de qualquer outra coisa, mas isso mudou. Já há algum tempo não há qualquer emprego onde uma mulher não esteja no comando. Perdemos para a organização, a sensatez e o perfume encantador do "sexo frágil" - Expressão abolida e proibida em publicações legais; corro risco de esquartejamento em praça pública, mas tudo bem.
Tudo correu bem por um ótimo tempo. Perdíamos nosso tempo vendo TV e provando todas as marcas de amendoim, elegendo as que mais combinam com cerveja. Uma série de infortúnios, porém, foi inevitável.
Congressos da ONU começaram a perder o sentido, quando por mais de duas horas discutiu-se as cores da nova e estilizada bandeira da UNESCO. Ficou-se em mortal dúvida sobre qual tom de fúscia utilizar (para homens leitores, consulte o guia de cores Anjo, entre tons púrpuras). A discordância entre as partes fez Espanha e Alemanha romperem ligações diplomáticas, e a União Européia sentiu o começo de seu fim. A Inglaterra passou perto de ser dividida em três, graças à indecisão quanto ao novo uniforme da Guarda Real da Rainha. Até hoje os guardas não têm notícias sobre a reestilização de suas vestimentas.
No Brasil as coisas não eram diferentes. O País parava às nove da manhã, pra acompanhar Mais Você na televisão. Por conta disso, o expediente se extendia até 20:00; o suficiente para chegar em casa e ver a novela após o jornal. Ministérios tiveram seus nomes trocados e as CPIs eram instauradas como trocava-se de roupa. Críticos econômico-políticos crêem que o estopim foi por volta da CPMI da tampa de privada levantada. Mas nada é muito certo.
O novo Mundo Cor-de-Rosa, que parecia tocar a perfeição com os dedos, enfrentava seu rápido declínio. Nas ruas, via-se novamente ternos e gravatas (com cara de quem estavam há muito tempo no fundo do armário) passeando, carregando malas e conversando alto ao celular. Os negócios da bolsa de valores foram lentamente voltando ao normal, após o veto da lei que dava exclusividade à transações entre Boutiques, Grifes e Perfumarias. Aos poucos, tudo voltou a ser ligeiramente mais cinza.
Os Estados Unidos, há vários anos em estado de Sítio, tinham suas ruas desertas e as famílias viviam com medo de uma guerra civil. A volta gradual dos homens ao poder fez voltar também ao funcionamento escolas e instituições públicas. Descobriu-se que, por mais de seis meses, tudo o que o país emitiu à França continha os dizeres "pelo menos somos cheirosas" como nota de rodapé, praticamente ilegível.
A reestabilização do mundo como um lugar menos caótico tomou tempo e fôlego, mas eventualmente ocorreu. Algumas empresas mantêm mulheres no comando, sob olhares de esguela dos funcionários. Muitas das chefes-de-Estado foram obrigadas a se retirarem da sociedade por alguns anos, dirigidas à casas de reabilitação. Geralmente um casarão atrás de altas montanhas perto da Capital do país. É fácil achar. É o prédio meio cor-de-rosa, meio verde-limão, com pichações de "porcos chauvinistas" por todas as paredes.
Leonard Schmitz
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(Valeu pela espera, leitores que cabem nos dedos das mãos. A segunda parte foi escrita em 15 minutos, então não saiu nada de muito tchãn. E ah.. obrigado mulheres, por serem tão lindas e divertidas.)
Revolução das Flores - parte 1
Numa rápida análise histórico-social, lançando mão de artifícios econômico-religiosos e computando dados políticos, etários e mais um monte de baboseira que se possa fazer numa pesquisa com todo mundo sobre as mulheres, chega-se à uma única conclusão: ruim com elas, pior sem elas.
Há muito essa máxima foi derrubada, é claro. Ela é fruto de conceitos machistas antigos e fora de moda. O homem na moda hoje é bem mais gay que muitos gays que eu conheço – não que eu conheça muitos gays – mas isso é papo pra outra história. A mulher é importante desde sempre, porém foi apenas com o fim do preconceito entre os sexos nas últimas décadas que puderam nossas flores se fixar como gente de verdade.
Pesquisas controversas realizadas no MIT – Boston, Massachussests (tente dizer isso bêbado) provam que mulheres são amplamente mais organizadas e sensatas, além de reagirem melhor a situações adversas. Por outro lado, homens têm uma mente matemática mais desenvolvida, o que leva a saber onde é melhor arriscar ou ser conservador. Nós nos equivalemos, vai... É isso o que importa.
Estamos dando os primeiros passos à democracia sexual. A socialista moderada Michelle Bachelet é a primeira mulher eleita por voto direto no Chile. Uma vitória incontestável para as feministas ferrenhas, e também para os chilenos engasgados com o governo esquerdista de Allende derrubado por Pinochet, anos atrás. Tudo dá voltas, é o que parece. Dando meia-volta no mundo, Ellen Johnson-Sirleaf é a primeira mulher eleita chefe de Estado na África, na Libéria. Num continente marcado pelo tradicionalismo de suas religiões tribais, uma mulher é escolhida como suprema comandante de um Estado em Guerra. Isso sim é superioridade feminina!
Elas já são mais bonitas. Têm responsabilidade e sensatez pra cuidar de assuntos complicados. Não correm o risco de se deixar levar por um decote exuberante, da chefe ou companheira de trabalho. Estão sendo eleitas ao redor do mundo, em países chave para a disseminação desse ato. E ainda cheiram tão bem! É praticamente impossível competir com isso. Está na hora de admitir: homem algum consegue superar alguém igualmente inteligente com cabelos presos e molhados, batom neutro, sardas delineando o suave rosto e pele bronzeada. É o nosso fim.
Por todos os cantos, elas vão começar a tomar posse. Primeiro vão sair de postos como caixas de supermercado e conquistar profissões masculinas, como motoristas de táxi ou ônibus, e programadoras de computador. Depois, poucas empresas não terão uma delas como Diretora-geral. É muito óbvio escolher entre uma bruta-montes e uma doce administradora.
Em pouco tempo, maridos não serão os sustentadores de família e tenderão a desaparecer. Casamentos serão obsoletos, já que as mulheres vão descobrir que é mais divertido ganhar muito dinheiro e ter todos aos seus pés. Sua superioridade chegará a um ápice, ao ser uma mulher eleita presidente dos Estados Unidos da América.
Tudo agora é diferente. Para as crianças, não é mais vergonha perder em algo pra uma mulher, e a expressão “vamos, faça como um homem!” se torna pejorativa. As coisas são infinitamente mais cor-de-rosa, com detalhes em 14 tons de branco que anteriormente eram vistos como um só pelos homens. Fica cada vez mais difícil para um homem conseguir um bom trabalho. Começam a sofrer de forte preconceito. A maioria acaba passando o dia todo em frente à TV, com um saco de biscoitos sobre a barriga e a barba mal-feita. Ao mesmo tempo, mulheres dirigem conversíveis enquanto anotam os últimos compromissos em seus palm-tops.
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(dessa vez eu exagerei.. semanas sem postar, mesmo estando de férias. Como sempre, as melhores idéias surgem do nada e são escritas em uns 10 minutos.)
O folclore do Ho Ho Ho!
De todo o processo nostálgico que é relembrar tempos áureos da infância, ainda estou pra ver algo mais divertido que divagar sobre a inocência da criança que um dia fomos. Todo mundo já deixou de rir por alguma piada de duplo sentido, ou cantou
Mamonas Asssassinas sem entender o que eles realmente queriam dizer.
E as mentiras em que acreditávamos? Veríssimo (o neto) diz que a primeira coisa que fez quando virou adulto foi comer manga com leite e não morrer. Eu não tive essa coragem. É claro que tudo não passava de história, mas ninguém sabia ao certo. Algum amigo tinha um parente cuja professora de primário havia morrido por comer leite com manga. Não seria eu quem desbancaria essa lenda.
De todas as mentiras do tipo "eu já sou grandinho pra saber da verdade, mas não tenho certeza", a mais antológica de todas é a misteriosa existência ou não do bom e velho São Nicolau. É, o senhor barrigudo e idoso, de barba e cabelos grisalhos e compridos, roupa e touca vermelhas. Quando chegamos aos seis, sete anos, sentimos por vontade espontânea que algo de estranho havia por ali. Um só Noel pra todas as crianças do mundo? - Claro que as que não se comportavam eram riscadas da lista, mas mesmo assim! Além disso, minha casa nunca teve chaminé e eu nunca soube aonde diabos as Renas ficavam estacionadas.
Com a passagem dos Natais, tínhamos todos a impressão de que poderia tudo ser uma grande mentira. Mas ninguém tinha certeza e, no alto de quase sete anos, nenhuma criança se daria o luxo de confessar a outro de sua idade sobre sua ignorância. Tudo indicava que ele não existia mas, no fundo, ninguém sabia mesmo.
Isso era o começo, a porta pra divagações individuais. Será que só eu disconfio que não tem Papai Noel coisa nenhuma? Acho que no fundo todo mundo é assim. Mas como alguém descobre isso sozinho? Será que os adultos não têm vergonha de perguntar uns pros outros? Vai que uns acham que sim, outros que não... Como eles se acertam?
No dia de Natal, a Mamãe pedia pra que os primos fossem todos brincar lá fora, que o Papai Noel ia passar pra deixar os presentes. O cara aparece uma vez por ano e ainda quer que ninguém o veja? Velho safado. Aposto que os adultos não precisavam sair, podiam assistir a tudo de perto.
No fim das contas, era fácil desvendar o mito: uma olhadela por entre as cortinas da sala resolveria. Todo mundo tinha a pulga atrás da orelha.
- Na verdade é a Mamãe e o Papai lá colocando os presentes embaixo da árvore. Eu sei!
Por segundos, havia uma pausa dramática. Ponderávamos o suficiente pra fazer o mais sensato: não olhar. Se tivéssemos tomado coragem, talvez encontraríamos o Bom Velhinho com um saco de presentes nas costas. Com uma mão ele retiraria um pacote aleatório e repassaria a uma ajudante de mais ou menos uns 1,30 de altura; a outra posta sobre o Lombar. Afinal de contas ele não era mais um jovem Noel e a coluna há muito havia se desgastado. São milhões de casas pra visitar, e tudo só hoje!
Poderíamos, no entanto, descobrir que realmente era a Mamãe e o Papai, e até seu tio Tuta, colocando os presentes ali no pinheirinho. E esse era o grande perigo. A cena seria esclarecedora durante os primeiros momentos. Passaria a desconfortante e acabaria no desespero da criança. Não haveria mais a surpresa, o encanto alegre e frívolo do Natal. A data seria reduzida a pacientemente esperar do lado de fora da casa, pacientemente cantar Noite Feliz; abrir os presentes e comer Peru com batata até não poder mais para, por fim, dormir insatisfeito.
Entretanto, nós não olhamos. Nós tivemos a chance de descobrir tudo, mas preferimos a incerteza. E foi bem melhor assim. Ainda há, na infantil cabecinha da gente, a possibilidade de vermos um senhor de idade procurando um trenó estacionado sabe-se lá aonde.
Leonard Schmitz
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Caramba, agora faz tempo. Ainda que eu postei algo bem
flog da vida, mas há tempos não parava pra fazer um textículo pra cá. Foi agora com espírito festivo.
Obrigado desde já aos 1/2 leitores do blog. Comentem né!
Fique em dia com o autor...
Desculpa, gente. Só abri aqui pra tirar o pó - contratei uma moça pra vir aqui com espanador e rodo, ela tá trabalhando lá no arquivo antigo e logo deixa tudo limpinho. Mas já que estou aqui, vou dar uma atualizada no conhecimento geral dos leitores sobre a vida de minha pessoa.
Faz mais de um mês desde o último post (27 de outubro), e eu fiquei com saudades de escrever. Vamos ao itinerário passado.:
Simulados, últimas provas, momentos de tensão e aulas pela manhã e à noite. Tudo isso já seria cansativo o suficiente, se ainda não houvesse os ensaios pra formatura por que eu passei.
Começando com a idéia de ser apenas um guitarrista de fundo, os exercícios de vocalização e 'interpretação' deixaram a todos mais confiantes e menos tímidos com o público. Na evolução natural do negócio, acabei por ser o único orador Homem dos seis (bendito fruto, eu..).
Com o texto dos professores em mãos, o esforço na atuação foi o suficiente e no fim das contas cantei a última música da formatura - Canção de Verão do Roupa Nova - e, quem diria, fui aplaudido como orador E como cantor. A alegria não poderia ser maior. E ainda toquei o hino nacional na guitarra... honra total.
A saudação dos professores depois foi motivo de muita felicidade. Todo mundo falando que eu tinha sido o bonzão (e, convenhamos.. eu sou o bonzão) .
Pra completar o pré-vestibular da Federal, fui aprovado no Cesusc. Iha. Algo de bom eu já tenho pro ano que vem. Mas a meta é justamente passar no vestibular da UFSC, começando domingo que vem.
Ufa. A tia da limpeza tá batendo no meu pé pra eu levantar o sofá e deixá-la varrer tudo. Posto um texto de verdade quando essa nóia acabar.
Beijos pra quem pode.