quinta-feira, maio 19, 2005

Como todos nós

(texto que tem uns 8 meses de idade. Praticamente meu primogênito nessa nova era. Acompanhem a inocência e a evolução aos dias de hoje, comparando com outros textículos.)

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Chega, enfim, o final de Junho. Os planos de viagem há muito feitos vão ter vez em um dos anos mais conturbados dessa típica, porém peculiar família do norte fluminense.
Sêo Alberto Costa e Dªbeatriz Costa e seus filhos Juca e Cíntia ainda dormiam quando batem as oito horas da manhã. O primeiro a acordar é o patriarca, como de praxe. Ávido e experiente, ele toma seu banho, faz a barba e desce para ler o último JB.
Meia hora depois, dªBeatriz acorda, mas não levanta. Ronrona na cama por alguns minutos, como que relutando a levantar num sábado tão frio e aconchegante.
Quando enfim levanta e desce, vê seu marido com o jornal em punho, a TV ligada em um canal fora do ar e a xícara sobre o móvel de centro SEM o porta-copos que é deixado ao lado da mesa, para o cabeça-dura não esquecer. Nada pior pra começar a manhã:
- João Alberto da Costa, cadê o porta-copos na minha mesa?
- Querida, só tinha apoiado pra virar a página.
- Você sabe as regras. Agora olha o que você fez na minha linda mesinha!
- Amor, estamos em 1984. Tem que haver, em todo o Rio de Janeiro, alguma coisa que limpe isso.
- Vá, vá. Vai ver as crianças e deixa-me sozinha que não preciso de tuas desculpas
Já contrariado, Alberto - ou Beto, como era chamado em casa - sobe para encontrar Cintia já saindo do banheiro, com o tradicional drama:
- Meu cabelo nunca acordou pior! Que saco de viagem também, né pai?
- Minha filha, nunca passamos tempo juntos! - Alberto fazia tudo, mesmo que sem sucesso, em prol da união familiar.
Ao entrar no quarto do filho, porém, se deparou com algo que o agradou. O caçula de tenros 7 anos já arrumava, desajeitado, sua mala. As roupas não dobradas e amassadas não ocultavam o senso de responsabilidade do pequeno.
Sempre fora o orgulho da família, já que a mais velha vivia reclamando. As poucas vezes que a filha lhes presenteava com bom-humor, era recoberto de sarcasmo e sua felicidade nunca era compartilhada. Superior ao que houvesse ao seu redor, nunca admitiu erro cometido. Nunca aprendeu a pedir desculpas e, ao contrário do resto da família, tinha uma ânsia por consumo apenas superada pela egolatria que lhe tomava a personalidade.
Já Juca, ao contrário, fazia questão de ser o educado e o correto na roda. Já brigou feio com amigos por ter-lhes dito que não podiam esconder-se de dois em dois no esconde-esconde. Não gostava de fazer ninguém parar de sorrir e mesmo assim vivia com uma seriedade igual à de seu avô. Fazia todos rirem e dificilmente sorria com piadas alheias. Era quieto, e quando respondia carregava mistério na voz. Tinha os olhos da mãe e os cabelos bagunçados do pai.
Dª Beatriz era a típica mãezona, de que todos gostamos e odiamos. Mantinha a casa impecável e brigava com quem entrasse sem bater os pés. Mas sabia fazer o bolo de fubá que os dois tanto adoravam. E escrevia mensagens no espelho, quando saía do banho. Vivia seu sonho de ser feliz com sua família e adorava a rotina.
Por último, Sêo Alberto. Tão sério e ético quanto brincalhão. Passou no primeiro vestibular (o único da família a conseguir!) para engenharia civil. É agora diretor de uma junta trabalhista, onde consegue tempo para trabalhar como calculista e faz sobrar algumas horas pra família. Pode-se dizer então que é uma família unida pelos probleminhas que tem.
Mas voltando à manhã que nos trouxe aqui (...) Alberto já conhecia o filho que tinha, e não se espantou – mas não conteve o sorriso – ao ver Juca já quase pronto.
- Filho, deixa que o pai te ajuda.
- Deixa, pai, eu sei fazer!
- Oh, que cena linda! Beijem-se agora! – Cintia berrava do outro quarto, ao ver o saco de seu irmãozinho ser puxado de novo.
Lá de baixo, ouvia-se Beatriz chamando os outros pro café.
- Vamos descendo que senão o dia acaba! - Sempre fazia comentários exagerados
À mesa, Cintia pensou quatro vezes antes de começar. Hesitou um pouco e, quando foi abrir a boca, Alberto aproveitou:
- Enfim uma viagem em família! Que bom que todos estão gostando da idéia – Mãe, me alcança o queijo?
- Faz tempo que não nos reuníamos, né? – Beatriz passava o queijo e concordava.
Juca poderia até não gostar, mas como diziam os tios, ele estava ali simplesmente pra amenizar as brigas da família. Já Cintia dizia o que pensava:
- Eu não quero ir e deu. Vocês dois bem sabem que hoje tenho show! Todo mundo vai paiê!
- Filha, você realmente prefere ouvir essa Urbana... como chama?
- Legião.
- Legião Urbana, que seja. Você não prefere passar dois dias em Angra dos Reis?
- Ah paiê.. sem comparação né. Angra é coisa pra velho! E velho chato, ainda. Legião é o que tem de melhor nesse país de merda. O que é da hora está tudo lá fora!
- Olha o palavrão, garota! – a mãe interferia quando necessário.
A primeira refeição do dia começava turbulenta, mas era assim sempre. A mãe preocupada com o nível da conversa e o marido calmamente argumentando enquanto a filha mal se continha, buscando sempre contrariar os pais mesmo traindo sua própria vontade. Juca só assistia e quando todos se viravam pra ele, como que pedindo ajuda, o pequeno apenas sorria:
- Gente, vocês ainda me cansam um dia. Mana, vai com agente porque você não pára em casa. Mãe, a mana está grande e fala palavrão direto com as amigas, eu sei. Só pede pra ela parar aqui. Pai... seilá, o que você disse mesmo?
De repente a discussão parava, mas por pouco tempo. Era a falta de dinheiro, a falta de liberdade, o excesso de proteção; motivos não faltavam. A família vivia em harmônica desordem. Por mais estranho que pareça, somos ou não todos assim?

sábado, maio 07, 2005

A sua é de quê?

Demorei, mas convenci-me: participamos de esclavagismo moral. Digo nós, referindo-me a todos, sem distinção. Não há clara escapatória contra imposições de intenção discutível, assim como não enxergo saída do aparelho moderador sem exclusão mais abrangente - até demais.

Por uma ótima causa, o ciclista seis vezes campeão da volta da França Lance Armstrong - recuperado de leucemia - abriu a fundação Livestrong against cancer, doando parte de suas conquistas para clínicas especializadas. Como tática marqueteira/altruísta, lançou a Yellow Wristband, como é chamada. Uma simplória pulseira de borracha amarela, made in China. Pelo ultra abusivo preço de 1 (um, é.. um!) dólar, o cidadão comum ajuda as formas normais de câncer e mostra a todos que é militante. Fez tanto sucesso que inspirou as famosas Stand up, speak up da Nike, e a Tsunami Aid (de cor verde limão). Embalada pela moda de rápida pulverização, a Nike lançou diversos modelos e cores, tendo o basquete como tema central e vestindo seus jogadores endorsados com as devidas pulseirinhas.

O que nos Estados Unidos fez sucesso, no mundo fará; não é isso? Se não for, há de ser. Pela Europa, as wristbands se espalharam como pão na praça de São Pedro. Por todos os cantos, jogadores vestem preto e branco no pulso, aderindo à causa. O engraçado disso tudo acontece logo aqui, no Brasil. Por trinta, quarenta reais, o ávido consumidor adquire sua Livestrong. Abuso? Ou uma tentativa não tão frustrada de elitizar um adereço puramente beneficiente? Minha resposta é: mania brasileira de idolatrismo americano. Isso ainda somado à mania mais brasileira ainda de crítica aos poderes supremos.:

- Ó, ó. Até tu, cara? Essa pulseira aí, meu.. ajudando os americano lá. Vai dar valor ao que é nosso po!
- Calmaí. Quer dizer que o câncer daqui é mais nobre que o de lá?
- Ah cara, tu compra pra fazer crescer mais ainda aquela superpotência
- Meu dinheiro vai praonde quero eu, certo? Quero ajudar portadores de câncer mas não tenho muito. Gastando míseros três reais o que eu faço aqui? No máximo pego o ônibus até a portaria da clínica. Deixa de preconceito e vê se apóia a atitude do sujeito, seu revolucionário sem causa.
- Ah vá tomar...

-------- Linguajar censurado, de acordo com a política da casa ---------

Interessante que, ao verem em meu pulso a amarelinha, sempre surge a pergunta:

- Ah essa é aquela que cada cor é uma doença, né?
- É, meu filho, é.

AIDS, Câncer, Vítimas do tsunami na Indonésia, Racismo. Causas nobres demais pra sofrerem plágio descarado. Aos camelôs, cores diversas dão o toque vivo. Pulseiras de todas as cores livestrong, diz o anúncio. O quê? Diversificação e propaganda enganosa, da pior espécie. Daqui a pouco presenciaremos o casal que se encontra na balada:

- Oi gatinha. Gostei da pulseira! É de quê?
- A minha é contra tosse e rinite, e a sua?
- Torcicolo e desconfortos do sono.
- Uhul essa é nova pra mim
- Ah é a moda agora, gatinha.
- Irado!
- Só..

Uma idéia que deu certo demais, infelizmente não conteve o aproveitamento dos parasitas publicitários. É uma pena, é uma pena.

E a sua, é de quê?


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Leonard Schmitz