domingo, setembro 25, 2005

Pato nem tão feio

- De novo não, meu filho!
A expressão de espanto da mãe era lugar-comum. Pela terceira vez seu filho caçula aparecia em casa com um olho roxo.
- Mas mãe, o Paulão continua ameaçando as crianças da primeira série!
- E não é por isso que você vai defendê-las contra um bruta-montes! Você tem só oito anos..
- Faço nove daqui a quarenta e três dias, mãe. E deu sorte de hoje eu ter um sanduíche pro lanche; ao menos o garoto não passou fome.
- Você deu seu lanche a ele? Era só o que me faltava, Luis Artur!

O Tuta era um cara estranho. Ele não tinha nenhum problema, não. Estava sempre no time de futebol de na equipe de matemática. Tinha amigos a perder de vista. O que intrigava os pais e todos que o conheciam era que o Tuta simplesmente não assimilava desonestidade.

Nada de errado passava batido. Já foi excluído de sala por ter delatado um amigo que lhe pedira cola. Já fez seu time perder final de campeonato quando, no último minuto, fez questão de gritar ao juiz:

- Mão! Foi mão minha aqui! - Ficou de castigo por um mês.

Esconde-esconde com o Tuta era ótimo. Ele era o único que realmente contava até cem - sem espiar - e gritava "lá vou eu" logo na saída. Por outro lado, brigava feio com os amigos que se escondiam dois a dois, recusando-se a participar da falcatrua.

Durante a adolescência perdeu muitas amizades. Não via por que idolatrar as garotas populares e nunca bebeu, o que resultou no afastamento da turma. Gastou grande parte de seu tempo pesquisando e estudando física espacial, conseguindo entrar para o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica como bolsista. Ao longo do curso conheceu o processo burocrático das pesquisas, sempre seguindo as instruções à risca. Com vinte e dois anos estabeleceu uma importante relação magnética entre os pólos terrestres e a orientação dos pardais durante o inverno. Os professores, aproveitando-se da inocência do jovem, deram um jeito de tomar a pesquisa para si e hoje dão palestras pela Europa sobre o assunto.

Tanta corruptibilidade ao seu redor não lhe abalava o comportamento. Via no cumprimento das leis um prazer indescritível: o de nunca estar errado. À medida que amadurecia, ficava mais arrogante. Não suportava nem a proximidade dos "amigos partidos", como os chamava. Distanciou-se do pai por saber que ele havia dado um "jeitinho" para antecipar sua aposentadoria.

Formado, teve dificuldade em conseguir o posto de operário mecânico de uma companhia aérea, de onde nunca sairia. Foi impedido de participar das reuniões entre funcionários, por querer contar as decisões do grupo aos chefes. Como era difícil convencê-los de que se deve ser justo e correto!

O Tuta tinha a essência do que é um indivíduo social perfeito. A sociedade, porém, não se constrói com perfeição. É feita dos justos e dos corrompidos, dos certos e dos errados, das oposições. São necessárias bases para comparação; temos, para isso, a esquerda e a direita. O Tuta estava certo em nunca estar errado, mas errou em esperar que todos fossem certos.

Leonard Schmitz

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Mais um texto feito nas bases do que pediria o vestibular, sobre o tema "corrupção". Desculpem a demora pros novos posts, mas o tempo é curto aqui. E obrigado à meia dúzia de leitores assíduos..

5 Comments:

At 12:58 PM, Anonymous Anônimo said...

E ai meu Drummondizinho(!). ahuhauua

Sociedade filha da puta.
Mas é assim que rola né, infelizmente.
Se o cara não for "mentiroso", ou tiver um "jogo de cintura", só se fode.

Bom seria se todos fossem honestos como Tuta. :P

 
At 2:07 PM, Anonymous Anônimo said...

Concordo..


tu escreve muito né? vaitefuder :*

 
At 4:13 PM, Anonymous Anônimo said...

ta legal o texto em !
a tia da redação deve te gostado hiuahiahaui
abraços cara!

 
At 8:18 PM, Anonymous Anônimo said...

Infelizmente existem poucos (ou nem existem, né) outros Tutas por aí.

Adorei :)

Beijinho, lindo
:*:

 
At 4:22 PM, Anonymous Anônimo said...

jah tinha lido no mural das redaçoes top do energia
es um montro
abraçao ae

 

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