quinta-feira, agosto 11, 2005

Sediando o apocalipse - parte 2

---Desculpem-me pela demora de mais de uma semana, mas o tempo é escasso e a vontade não ajuda. Prometo (mas não cumpro) postar mais, ok? Beijos---

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Com a garagem preenchida - cada festeiro que entrava na garagem fazia com que um outro, lá do outro lado, fosse empurrado pra fora - o resto da casa estava desértica e silenciosa. A visão de uma sala de estar (ou o que sobrou dela) vazia abriu seu sorriso. Por quase meio segundo seus dentes ficaram à mostra, interrompidos pelo som de vidro quebrando e risadas desconfortáveis vindas da garagem. Na rápida saída por trás da casa ainda teve tempo de lançar olhares de canto à casais que se engoliam em cantos escuros.

Aparentemente nada mais poderia causar-lhe espanto; já havia sofrido de tudo nessa noite. A cena, porém, não foi agradável: um bando de gente desconhecida usava anões de jardim como objetos sexuais, protagonizando situações vistas só nos piores pornôs. E eram ovacionados até pelas garotas, que a essa altura já tinham muito sangue no seu álcool.

Com o final do quarto CD de funk - depois de outros quatro de pagode - a agitação era menor. As mais comportadas já tinham ido embora, levando consigo namorados submissos e as primeiras amigas bêbadas. Como conseqüência, vários homens saíram sem avisar, andando abraçados pra manter equilíbrio. Seu ânimo agora é inversamente proporcional ao número de convidados - e não-convidados - e cresce a cada minuto.

Menos de dois minutos após o fim da música (e da bateria) do carro, um violão surge do nada, dando tom melancólico à festa. Começa-se com reggae e rock, é claro. O pop romântico faz uma aparição relâmpago, dando lugar à pedidos excêntricos das meninas bêbadas. O violeiro enrola mais que toca, mas ninguém percebe. Quando as músicas depressivas tomam conta do repertório, pares de olhos se encontram na rodinha, enquanto outros lacrimejam discretos. Entre versos e estrofes ouvem-se suspiros de desânimo.

Crente que a festa estava se encaminhando para o esperado fim, você volta pra dentro de casa e se joga no sofá mau iluminado da sala. Ou melhor, se joga em quem já está no sofá. Uma mulher deitada? Um HOMEM deitado? OS DOIS? Antes de descobrir você pula fora e acaba puxando uma cadeira de praia pra dentro. O silêncio toma conta e só se escutam estalidos de beijo romântico, e até alguns gemidos vindo de longe. Você tem até medo de entrar no quarto e ver o que acontece lá. Mas vai mesmo assim.

Na porta, um papel toscamente recortado carrega os dizeres: 'Não perturbe, garanhão na atividade'. Infelizmente, você não vê a mínima graça e entra sem cerimônia. Para a sorte de todos, o que se vê é um casal deitado embaixo dos lençóis, se beijando lentamente. Ao sinal da sua presença o rapaz pula da cama, mostrando-se só de cueca. A moça assustada cobre-se com o lençol e corre pra pegar suas roupas, junto com ele. Sem dizer uma palavra você sai do quarto, fechando a porta.

Ao voltar para a churrasqueira você encontra dois casais aparentemente recém-formados - e não reconhece ninguém - e o violeiro tocando sozinho. Passam-se alguns minutos e eles também decidem ir embora, sabe-se lá como. Você está, enfim, sozinho. Ou acha que está.
Um casal descobre ser observado por seus olhos de anfitrião e sai do canto escuro aonde estava; ela descendo sua saia, ele fechando o zíper da calça. Na saída os dois tropeçam um no outro e riem descontroladamente, enfurecendo a já acordada vizinha do lado. O silêncio agora dura mais do que apenas alguns segundos e você parece estar chegando ao nirvana.

Uma última olhada no estrago causado pelos baderneiros chama sua atenção para um canto escondido da churrasqueira, onde você não se lembra de ter ido essa noite. Em um banco comprido, daqueles de igreja, senta-se uma figura ligeiramente familiar. Você não se lembra daonde reconhece o rosto, até que ele se vira pra você.

- Opa, desculpa o incômodo até agora.
- Calmaí. Você não é o..
- Sim sim.. o Tuta não veio, pelo que parece
- Ah, sei.
- Acho que ele não vem mais, né?
- É difícil, cara.
- Então acho melhor eu chamar alguém pra me buscar.

Virando-se de costas pro infeliz, você entra na casa e se joga na cama desarrumada, antes de perceber que ela tinha sido usada pra, digamos, consumar uma relação. Juntando energia sabe-se lá de onde você pula e procura um canto intacto pra dormir. Encontra o depósito, do lado do baú com copos e porcelana guardado horas antes. Abraça-se a ele. Enfim um canto não bagunçado e inteiro da casa.


Leonard Schmitz
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êlaiá.. Fim a mais uma série de dois (2) contos. Deixem o comentário e valeu muito pela visita!

segunda-feira, agosto 01, 2005

Sediando o apocalipse - parte 1

São 17:45 no seu relógio, e você nem tomou banho ainda. É sexta-feira e, como toda sexta-feira, tem festa. Só que desta vez é na sua casa. Uma última checagem antes dos preparativos finais:

- Cerveja na geladeira, refrigerantes também. Vodka - da mais barata - à mesa, junto com os sacos de pão e o coraçãozinho descongelando. Pais viajando desde quinta-feira. Artefatos de porcelana, cristal e qualquer coisa quebradiça devidamente guardados e lacrados em baús no sótão da casa. Beleza.

Saindo de cabelos molhados e peladão do banheiro, você avista o primeiro a chegar, pela janela. Ou melhor, ele te avista. Após um microssegundo de desconforto ao tapar com a toalha sua Zona do Agrião, você tem a ligeira impressão de não conhecê-lo.

- Opa, tudo bom?
- E aí.. tranquilo sim.
- Ah, legal.
- Ehm...
- Eu sou amigo do Tuta. A gente se conheceu lá no show lembra?
- Ah claro claro. Fica à vontade cara.

Nesse momento algumas perguntas lhe vêm: Será que está tudo preparado? Será que todo mundo vai achar a casa? Que show e que cara é aquele? Nada tem resposta por enquanto.

Quinze minutos se passam e você acabou de se arrumar. Indo pra sacada você já encontra alguns conhecidos, e mais gente estranha. A noite começa a cair e o ânimo ainda é fraco.

- Vai uma gelada aí? O freezer tá cheio!
- Claro claro.

Mal acendem-se as luzes automáticas da rua, sua casa é tomada por gente que parecia estar à espreita, esperando pra atacar em bando. No meio da multidão que vem, você reconhece alguns rostos, mas não muitos. À frente de todos vem o Tiago, cercado por penetras. Lá no meio você acha que viu o Cacá, entre uma menina de óculos escuros - sim, mesmo à noite - e um cara que parecia estar de boina - além de bicões, eram excêntricos!

Uma boa parte dos últimos quarenta minutos foi tomada pela limpeza de uma latinha que estourou na cozinha. O criminoso era, com certeza, um dos bicões; qual deles não era problema. Você percebe que o intervalo entre um assunto e outro parecia estar demorando demais, e quando você corre pra ver o motivo - na sua cabeça a imagem de alguém desmaiado e muitos em volta - tropeça no cabo da vassoura que usou pra limpar a bagunça na cozinha e dá de cara com a mancha molhada do gramado. Deitado de bruços você faz força e olha pra cima. Vê um desconhecido abotoando as calças e sussurando:

- Pode deixar xará. A festa é tua e eu não conto que tu tropeçou bem onde eu vim regar aqui.

Já são quase onze horas, mas parecem três. De leve o som de bate-estaca vem aumentando rua adentro, antecedendo um carro lotado - no sentido mais populoso da palavra - de gente. Quando os passageiros começam a sair você tem a impressão de ter visto algo parecido no circo, com palhaços e um fusca. O motorista - penetra, é claro - entra com o carro na garagem sem perguntar e põe o som no talo, atraindo os convidados pra frente da casa. Se aquilo tocando era pagode ou uma TV fora do ar, você nunca irá saber. Pelo jeito, porém, o anfitrião era o único incomodado com a má qualidade do som do carro; a mulherada veio sambar, trazendo consigo os homens e o barulho das conversas.

----------------------------Continua-----------------------------------------------------

Zentem desculpa a demora ao post. Fiquei feliz de ter recebido comentários exclusivamente pedindo pra eu postar mais.. Tomo como incentivo de todos vocês, minha meia-dúzia de leitores.