domingo, fevereiro 19, 2006

O importante é competir (abaixo de zero)

Torino, 2006. Delegações em casacos de pele, hotéis lotados e gelados, Repórteres cobrindo as orelhas com felpudas luvas, e neve. Muita neve. É o clima divertidamente congelante das olimpíadas de inverno.

Antes de tudo, quero chamar atenção para o mais emocionante dos esportes de inverno: o Curly. É. É a "bocha" com pedras escorregadias e vassouras. As malditas vassouras que não param de se mexer. É um tanto incrível como a monotonia toma conta, durante uma partida. E mais incrível de tudo, ele hipnotiza. Assistindo ao jogo EUA x Rússia, me deparei com minha família inteira sentada ao sofá, opinando as melhores jogadas para tirar uma pedra de perto do centro do alvo, sem prejudicar suas próprias pedras. Por quarenta minutos assistimos a outras partidas, sempre vibrando com as jogadas impecáveis. E as vassourinhas varriam cada vez mais rápido, e mais rápido.

Outra grande modalidade é o "ski n' shoot", como os americanos denominam. É onde os atletas esquiam por alguns kilômetros, param em uma determinada área e atiram em alvos distantes. Aí voltam a esquiar até a próxima parada para uma certeira mira. E assim vai até que alguém decida trocar de canal. Não sei se a idéia foi simular alguma atividade na neve, mas não deu certo. Ninguém quer ver o pessoal esquiando devagarinho e atirando, né? Eu não, pelo menos.

As mais variadas modalidades são "introduzidas" ao conhecimento do público-geral, a cada olimpíada de inverno. O mais famoso deles é o Bobsled, aquele do "Jamaica abaixo de zero". Agora lembrou, né? O Brasil participa dessa modadlidade, é claro! E para tanto, usa corredores e atletas de solo, enjambrados como tripulantes do trenó gelado. É o jeitinho brasileiro em todo - literalmente todo - canto do mundo.

Falando em Brasil, lembro-me do Boarder Cross. Ah, o famigerado e infame Boarder Cross. É a corrida de snowboard, em uma pista com curvas inclinadas e rampas. Foi onde a brasileira Isabel Clark conseguiu a nona (é isso mesmo) posição na classificação geral. Como isso aconteceu? A garra e vontade verde-amarelas se mostraram mais uma vez? É óbvio que não. As comemorações foram extensas e exaustivas e eu não guentava mais ouvir falar dessa bateria que deu à Clark o 9º lugar. Quando vi o replay, no entanto, entendi tudo. As três primeiras corredoras se envolveram em um acidente, deixando caminho livre pra quarta (e última) corredora. Alguma dúvida de que era brasileira? E assim ela correu - ou esquiou - livre para a vitória. Vergonhosa vitória.

Ainda nos board-races, algo que me deixou feliz de tanto rir. Até os últimos metros, uma americana - a publicação de seu nome resultará em abertura de processo, é claro - dominava com vantagem a prova. Estava a poucas rampas do ouro. Rampas grandes. Grandes e largas. Rampas grandes, largas e livres para abuso. Foi aqui que ela se perdeu: no penúltimo grande salto, arriscou um grab-trick (uma manobra bem abusadinha) pra mostrar que, além de rápida, ela tem mandinga. E não foi que, ao tocar na neve, perdeu equilíbrio e caiu? Foi tempo suficiente para a suíça, que ocupava a segunda posição, fazer ultrapassagem e garantir a medalha suprema. Para a americana genérica, a prata. E a desilusão de saber que ela foi arrogante a ponto de ser incompetente. Muito incompetente.

A Itália tem a pizza. Tem as Tartarugas Ninjas. Tem Pininfarina e seu estúdio de design automobilístico. E, agora, tem gente pulando, correndo, patinando, dando pirueta (e até atirando!) na neve e no gelo. Espera-se Montreal 2010, então.

Leonard Schmitz

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Como sempre, demorou mas chegou. Saiu na hora esse, também. COMENTEM, please? Beixocas.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Revolução das Flores - parte 2

(pra ter a noção certa do texto, leia o penúltimo texto publicado, "Revolução parte 1" ok?)
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Por anos estiveram a força-bruta e as vontades machistas àcima de qualquer outra coisa, mas isso mudou. Já há algum tempo não há qualquer emprego onde uma mulher não esteja no comando. Perdemos para a organização, a sensatez e o perfume encantador do "sexo frágil" - Expressão abolida e proibida em publicações legais; corro risco de esquartejamento em praça pública, mas tudo bem.

Tudo correu bem por um ótimo tempo. Perdíamos nosso tempo vendo TV e provando todas as marcas de amendoim, elegendo as que mais combinam com cerveja. Uma série de infortúnios, porém, foi inevitável.

Congressos da ONU começaram a perder o sentido, quando por mais de duas horas discutiu-se as cores da nova e estilizada bandeira da UNESCO. Ficou-se em mortal dúvida sobre qual tom de fúscia utilizar (para homens leitores, consulte o guia de cores Anjo, entre tons púrpuras). A discordância entre as partes fez Espanha e Alemanha romperem ligações diplomáticas, e a União Européia sentiu o começo de seu fim. A Inglaterra passou perto de ser dividida em três, graças à indecisão quanto ao novo uniforme da Guarda Real da Rainha. Até hoje os guardas não têm notícias sobre a reestilização de suas vestimentas.

No Brasil as coisas não eram diferentes. O País parava às nove da manhã, pra acompanhar Mais Você na televisão. Por conta disso, o expediente se extendia até 20:00; o suficiente para chegar em casa e ver a novela após o jornal. Ministérios tiveram seus nomes trocados e as CPIs eram instauradas como trocava-se de roupa. Críticos econômico-políticos crêem que o estopim foi por volta da CPMI da tampa de privada levantada. Mas nada é muito certo.

O novo Mundo Cor-de-Rosa, que parecia tocar a perfeição com os dedos, enfrentava seu rápido declínio. Nas ruas, via-se novamente ternos e gravatas (com cara de quem estavam há muito tempo no fundo do armário) passeando, carregando malas e conversando alto ao celular. Os negócios da bolsa de valores foram lentamente voltando ao normal, após o veto da lei que dava exclusividade à transações entre Boutiques, Grifes e Perfumarias. Aos poucos, tudo voltou a ser ligeiramente mais cinza.

Os Estados Unidos, há vários anos em estado de Sítio, tinham suas ruas desertas e as famílias viviam com medo de uma guerra civil. A volta gradual dos homens ao poder fez voltar também ao funcionamento escolas e instituições públicas. Descobriu-se que, por mais de seis meses, tudo o que o país emitiu à França continha os dizeres "pelo menos somos cheirosas" como nota de rodapé, praticamente ilegível.

A reestabilização do mundo como um lugar menos caótico tomou tempo e fôlego, mas eventualmente ocorreu. Algumas empresas mantêm mulheres no comando, sob olhares de esguela dos funcionários. Muitas das chefes-de-Estado foram obrigadas a se retirarem da sociedade por alguns anos, dirigidas à casas de reabilitação. Geralmente um casarão atrás de altas montanhas perto da Capital do país. É fácil achar. É o prédio meio cor-de-rosa, meio verde-limão, com pichações de "porcos chauvinistas" por todas as paredes.

Leonard Schmitz

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(Valeu pela espera, leitores que cabem nos dedos das mãos. A segunda parte foi escrita em 15 minutos, então não saiu nada de muito tchãn. E ah.. obrigado mulheres, por serem tão lindas e divertidas.)