terça-feira, outubro 03, 2006

Livro. Livro-me? Livre!

- Mãe, eu quero esse!

O rosto fechado da mãe contrastava com o barulhento e colorido ambiente. Braços cruzados, cara amarrada; era difícil entender a expressão fria diante de tanta animação da filha. Com os olhos brilhando, a garota corria, sem medo de tropeçar nos cadarços desamarrados. O cantinho infantil da feira de livros era um paraíso para ela, que mais olhava figuras que se preocupava em ler o conteúdo carregado pelos livros em suas mãos.

Para onde a pequena garota corria, era acompanhada por irritados passos da mãe, que ignorava olhares pedintes da filha, afinal tinha prometido-lhe apenas um livro. Mal esboçando reação ao ver o sorriso branco e sincero no rosto da criançada, lançava olhares desaprovadores aos pais que pareciam divertir-se mais que os filhos.

Fora criada por pai Sargento e mãe filha de General, não tendo, assim, opinião própria sobre nada. Sua leitura era sempre forçada e os livros, inadequados. Cresceu odiando francis Bacon e H.G. Wells. Adorava explicações e exemplos na lousa, tudo o que não envolvesse páginas escritas. Teve até pesadelos com bibliotecas e suas pretensões de engoli-la.

Formou-se engenheira e desenvolveu um gosto pético pelos cálculos; na rua, evitava ler placas e letreiros, concentrando todo o seu tempo livre na resolução de problemas metafísicos e culinária. No casamento - quem diria, com um advogado - ganhou ótimos livros raros e caros, que mais tarde renderiam duradoura fogueira. E depois de tanto ódio, via-se cercada por pequenos e ávidos leitores, sem entender tanta correria, tanta alegria.

A filha foi alfabetizada mais cedo que o usual, pelo pai. Foi curiosidade sua, aos tenros quatro anos, saber o que diziam placas de trânsito e jornais que tanto o pai folheava. Aprendeu rápido que a leitura induz o raciocínio e forma opinião, sendo ela a única de sua sala de prezinho a saber quem era Ziraldo. Tinha mais livros que bonecas e não via problema nisso; apenas tomava cuidado para não ler na frente da mãe, pois sabia que iria causar discussão entre os pais. Enquanto ganhava livros semanais do pai, ouvia a mãe suspirar à noite, no quarto:

- Por que ela não vê Tevê como dodo mundo? Por quê?!

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Sendo o último post datado de 1922, acho que já tava na hora de voltar a escrever. Transcrever, em verdade: esse texto é esboço do que viria a ser uma dissertação para o vestibular (ah, os tempos de vestibular). Notem a inocência e os traços infantis no estilo de escrever.


Beijos aos 2 e 1/2 leitores do blog.