quinta-feira, outubro 28, 2004

O espírito - suíno ou não - da revolução

Em tempos de uma modernização já fictícia de tão exagerada, muitas são as opiniões sobre tudo o que diz respeito à tudo; A liberdade de expressão exacerbada leva à fadiga dos ouvidos, de tanto que ouvimos e lemos sobre o que haveria de errado com o país, a cidade, o bairro, a padaria, a casa ao lado.

As muitas tranformações das últimas décadas nos trouxeram a mudança de estação e de cor nas estruturas políticas e culturais. Se Elvis mexeu a pélvis pra criar o Rock n' Roll, e os Beatles eram ingleses que se vestiam, cantavam e tocavam como americanos, tudo isso instituiu a condição de "adolescente" antes inexistente na sociedade. E se esta condição foi estabelecida pelos idos de 60', a reforma punk começando em - 74' a 91', de maneira aberta - concretizou o papel dos tais adolescentes como protestantes do que quer que fosse o sistema regente.

Não são raras as críticas ao capitalismo tendo a clara base de que o mundo justo é o mundo sem classes, sem discrepâncias de qualquer instância. Culpar o mecanismo econômico de criar ideologias negativas como a do consumo e a da fama é xavão, isso todos sabem. Sabem mas não identificam quando tais críticas são apresentadas de maneira tão esdrúxula. Movidos pela tal reforma punk, a juventude de todas as épocas vê-se na obrigação de reclamar seus direitos exercendo o que seriam seus deveres. Fica tão explícita tal papel designado à esta classe que não raro vemos revoltas contra o que lhes diz respeito de maneira positiva. Criticar o capitalismo é falar mau de mim, de você, de todos. Afinal somos fruto da tal estrutura, queiramos ou não. Estejamos ou não calçando nike, usemos ou não uma Bhali. Até os ditos punks ou metaleiros por excelência - os poucos que têm cabeça pra discutir o assunto sem acharem-se comunistas demais pra se entregar aos valores - têm gostos impostos por uma sociedade regida pelo lucro bruto. All Star? O mais tradicional fruto do que a América produziu para deixar o mundo mais americano..

Tanto são "cabeça-dura" os revolucionários de hoje, que mal sabem o que reivindicam. Caso fosse o socialismo nosso sitema regente, veríamos (como na república Tcheca já foi visto) os claros protestos e bandeiras erguidas: "Queremos Coca-Cola, queremos Holywood..." Seguindo ainda o país fictício onde o socialismo seria implantado com relativo sucesso. Se hoje vemos bandas criticando seriamente o que é comumente chamado de "sistema" por nos impor a maneira de pensar e agir, imagine como seriam as tais críticas a um sistema comunista de poder? A intervenção, não só econômica mas política e cultural, seria vezes maior...

Algumas personalidades conhecidas se valem de sua bagagem cultural pra expressar-se, sem perceberem o que fazem. Frei Beto é padre, não sente na carne a inversão de valores que propõe. Sua concepção de capitalismo nos faz crer que seria uma ditadura com imposições de classe, quando na verdade nem tudo são espinhos.
Não sei se o Frei é influenciado pela conduta punk, até porque não deve curtir Pixies enquanto reza. Não imagino uma figura religiosa e política do país como ele sentando-se à bateria pra tirar alguma do MudHoney, não.

Seja de uma maneira ou de outra, de muitas enfim, qualquer má-língua sobre uma instituição superior e qualquer sugestão de drástica mudança devem vir acompanhadas de cautela e consciência. Se for pra falar mal, que agrida de maneira certa. Se é pra ter espírito, que não seja de porco.

(retirado de uma redação de Filosofia feita hoje mesmo, em cima da hora. Não era oq o prof. pediu e até acho q ela vai ficar puto com isso, afinal é petista. Mas fazer oq.)


Leo Schmitz

domingo, outubro 24, 2004

A flecha, a cruz, as cores

Parece que a versatilidade de um escritor é testada por sua ecleticidade. Vários gostos, várias funções - até aí todo mundo sabe. As peculiaridades de cada "setor" da língua escrita, porém, merecem respeito e tempo. Para tentar provar a vontade de expandir horizontes, uma rápida crítica automobilística.

Não é todo ano que se vê as três pontas, a cobra e o cálice, o leão francês, o "cavalinho rampante", o tridente sagrado, o Búfalo. Não é todo ano mas é de dois em dois. O salão do automóvel está ocorrendo em São Paulo capital no centro de eventos Anhembi, do dia 21 ao 31 de outubro. A visita é longa e prazeirosa, pra quem gosta.

Por ser um sábado, esperava-se já uma imensa fila. Por ser sábado de treino da Fórmula-1, então, as expectativas eram de um movimento caótico, do começo ao fim. E tal foram. À entrada estavam uns 1000 pagantes - por R$20,00 , ninguém espera seleção de clientela - já ao meio-dia, esperando a abertura das portas e do mundo automobilístico do primeiro escalão ao alcance do olhar.

Já na entrada, a Honda exibe suas motos e abre espaço pro setor de tuning, mercado que tanto cresce desde o sucesso de "velozes e furiosos" e sua continuação. DVD's, PlayStations, praticamente quartos de hotel dentro de carros que por fora são quase irreconhecíveis. Motorização avivada pela injeção do poderoso NOS (nitrous oxyde systems), que nada mais é que óxido nitroso; spoilers, saias e acessórios em todos os lugares. O som é ensurdecedor e, o pior, varia de trance à axé, sem passar por nada audível.

Ao cruzar o corredor, percebemos de longe os símbolos das "quatro grandes", que detinham os maiores stands. A Chevrolet pecou ao disponibilizar seus carros em um segundo pavimento, liberando a entrada de 100 pessoas por vez e limitando assim a entrada de muitos - fui um a ficar de fora. A Fiat exibia Stilos, Palios e coisas do gênero, sem expressão. A VolksWagen abriu o maior stand da feira, chamando poucas atenções pro lançamento do ano CrossFox e enchendo o espaço de gols, passats e, felizmente, um Toareg pra salvar o dia. A Ford foi a grande campeã deste rol, exibindo além de suas maravilhosas Explorer e Escape, os American Muscle GT40 e Mustang Cobra GT. Ambos me tiraram uns 20 minutos de observação.

As japonesas, como sempre, estavam lá. Mitsubishi tinha os EVOVIII e os L200Sport. Hyundai e Subarí se juntaram e não conseguiram nada de bom. Até a SSangYoung (sul-coreana) tinha mais atrativos. A Nissan, para sua sorte, tinha seu todo-poderoso 350Z, nas versões ultra-tuning e standard. A Kia, coitada, apresentou a Sportage e uma série de vans e camionetes.

Toyota e Honda merecem destaque. A primeira trouxe infinitos Corollas, mas salvou-se com seu Híbrido prius - o ecologicamente correto - e seu conceito PM, que é mais um robô ultra tecnológico que um carro. A honda, por sua vez, trouxe mais Fits que já vi nas ruas. Ao menos havia um Accord - lindo - e um BAR.

Os europeus de luxo - ah, os europeus de luxo. A Audi trouxe o novo A6 e agradou. Seu roadster TT veio em uma versão tunada e exagerada. A grande atração foi o Audi Le Mans, já esperado mas louvado de qualquer maneira. A BMW fez sucesso com as novas 760 e 545, mas não com seu lançamento 140. Uma pena, pois o carro é bonitinho e harmônico. Os Volvo vieram em seu jeito sério e quase monótono de ser, mas a esportividade foi bem explorada desta vez. V70 e S40 na versão R - sport - trouxeram cor ao stand. Os jaguar atraíram muita gente, mesmo com poucos carros. Nada de surpresas na inglesa que se juntou à Ford e paga caro por isso.

Agora, a rendição. Ao contrário do que esperava, a Mercedes-Benz não só foi a grande atração, mas teve o stand de mais beleza. A CLS atraiu pequenas multidões, enquanto os já consagrados E500 e S500 exibiam a imponência alemã de sempre. O grande show da noite foi a apresentação da incrível SLR, o esportivo denominado "incomparável" com razão. Em 5 show diários, as apresentações atraíram uma multidão imensa, constituída basicamente de desentendidos. Os poucos que sabiam do assunto ficaram estupefatos, concordando com a denominação da mais nova flecha prateada de sucesso.

A Ferrari e a Maserati de juntaram em um stand grande. Quatroporte e Grand Sport de um lado; Scaglietti, Modena e Stradale do outro. Sempre movimentados, afinal. Sucesso garantido.

Uma perfeita maneira de gastar-se um sábado. Cansativo e tumultuado, porém reluzente de tão perfeito. Dentro de dois anos, mais uma jornada.

Leonard Schmitz

sexta-feira, outubro 22, 2004

Até quis

Em dias de conturbada memória, buscando o que não devia, encontrei-me procurando inspiração nos lugares errados.

Assim como todo grande escritor, tentei criar um cenário perfeito para um desenrolar longo e detalhista. Queria ter meu próprio Arthur Dent, vagando o espaço em busca de novas sátiras da humanidade. Queria um Bo Didley só pra mim, com a fama de mau e a genialidade de Harper Lee.

Abri a caixa de texto já descrente. Comcecei a descrever o inebriante verão francês, as vinícolas e as casas de campo praticamente atemporais, tamanha a beleza da arquitetura retrô; mas parei por aí. Um dia talvez continue.

Tentei seguir uma linha mais "Phileas Fogg", idealizando um fidalgo inglês à brasileira, que sai toda manhã para tomar café em hotéis e encontrar-se com a alta aristocracia à fim de um bom Porto. Não consegui e desisti, já pensando na próxima investida.

Em busca de algo um tanto mais real, fui atrás da cinza e fria N.Y.C, nos anos 80. Saído de uma das únicas famílias brancas do Bronx, o jovem era tipicamente um produto industrializado do que um americano haveria de ser. Exalava incerteza, mas a encobria com postura e frases feitas. Foi aí que parei e decidi retrogredir um pouco, afinal estava virando clichê além da conta.

Me aventurei por uns três minutos no campo das críticas políticas e sociais, logo as esquecendo. Já fiz tanto disso que não há tanta coisa a ser discutida, afinal. Relatar o quotidiano, o satirizando e apontando o que todos nós fazemos sem perceber? É um caminho. Queria algo diferente ainda.
Mal havia pensado em desistir, me veio à cabeça a idéia de uma conspiração secreta, algo no melhor estilo George Orwell ou Dan Brown, com informações que tremeriam as bases das estruturas mundiais. Inevitavel foi, infelizmente, a guinada para o texto humorado e espirituoso. Em menos de cinco minutos, descrevia uma comunidade de dezessete anões ioguslavos e suas infalíveis técnicas de paralização do inimigo à cócegas.

Seja meu próprio fidalgo, meu detetive não-tão-secreto, meu conto de amor rompido ou a reflexão de sempre, não fui longe. Seja o velho e bom Herói para uma guerra, uma situação tão normal quanto inusitada ou um poema de livreto, me esqueci do que viria logo após as primeiras linhas.

Até comecei a escrever sobre o quanto queria fazer um bom texto, sobre como quis achar motivo pra escrever e acabei criando a "metalinguística textual" por acidente. Vagueei por um tempo nas idéias passadas e as relatei. Tentei de tudo pra não deixá-lo massante. Fui atrás de uma singela razão pra escrever sobre o que não havia conseguido escrever. Fiz tudo isso. Ou teria feito, mas desisti.

Leonard Schmitz

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domingo, outubro 17, 2004

Samba pra quatro, por favor.

Mal sabiam os assíduos freqüentadores do Botecchio - infame brincadeirinha de raízes italianas, típica dos paulistanos da década de 60 - que à mesa 09, junto à porta de entrada, estava reunido um grupo de velhos amigos que muito tinham a conversar. Antonio, Fransisco, Vinícius e Pecci (que também era Antonio, chamado pelo sobrenome pra evitar confusões) tinham o ritual do encontro às quartas à noite. Cerveja, futebol, mulheres, sinuca e samba; viviam a seguir o que sabiamente denominavam o pentágono perfeito.

- Desce mais uma, Almeida - O garçom Almeida era parte do folclore daquele grupo. Era motivo de chacota por gostar de Agnaldo Timóteo (os amigos não o perdoavam).

Os quatro tinham semanas diferentes e agitadas e os encontros traziam à tona seus lados mais infantis. O violão nunca faltava, é claro; às vezes compunham ali mesmo.
A influência era estranhamente recíproca entre todos eles. Dali, Antonio e Vinícius eram mais velhos, mas não importava. O humor sofisticado e a filosofia integrada às ideologias de todos os faziam cult sem eles mesmo quererem.

Nesta quarta-feira em particular, a TV Tupi exibia Corinthians e Vasco, para a alegria dos quatro. As atenções se desviavam do jogo para pedir mais uma rodada ou para comentar os atributos da bela senhora duas mesas ao lado.

- Tom, você que gosta de loira, vê se é de teu agrado
- Loiras, morenas, ruivas ... são belas e cheirosas, de meu agrado são todas!

Era engraçado como fluía a poesia e os versos rimados entre eles, quase sem querer. Quem via de fora não seguia as linhas de raciocínio, tamanha era a distinção destes senhores da nossa cultura. Ali, porém, estavam em meio aos "mortais", exercendo suas funções humanas. Beber, jogar, beber mais um pouco. Das nove às duas, duas e meia, a noite era deles e a preocupação era esquecida em casa.

Constragedor era quando o rádio tocava alguma de um dos quatro - o que ocorria umas cinco, seis vezes por noite. Ficavam os outros três a rir e cantar, chamando atenções por todo o bar.
Mal havia acabado o primeiro tempo, o som ambiente rompe o murmúrio com notas simples e belas:

"Quando, seu moço, nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar..." Neste instante viu-se os já consagrados olhos verdes se apertando e três outros pares de olhos se arregalando para sorrir convenientemente.

- Vamos Chico, canta junto! - Sempre quem iniciava as brincadeiras era"Antonio novo", como era carinhosamente chamado.
- Eu acho que já ouvi isso umas cinco vezes hoje - O cinismo de Vinícius destoava da suavidade com que versava em seus livros.

Passados os momentos de desconforto, um assunto qualquer os tomava por minutos, aumentando o consumo de cerveja e conseqüentemente o volume das risadas. Quem sabia o valor cultural sentado àquela mesa não parava de pensar: "como pode tanto talento em um metro quadrado? É quase injusto!"

Por ali ficavam a relembrar momentos e contar histórias. Junto deles poderiam estar Paulo, Nogueira, Elis. A conversa invariavelmente ia para o lado da política, e aí as divergências os faziam parar um pouco e acalmar os ânimos - afinal um acordo era praticamente impossível.

De tantas palavras, tantas notas e tantos sorrisos, o cansaço batia às portas de maneira homérica. Quatro boêmios que muitas vezes tinham de seguir certas regras formais demais. Não raro um deles abria seu peito à mesa e lhes contava o que havia passado, como se sentia. Tão amigos que eram, um problema não saía sem resolução daquela tradicional mesa nove.

De várias maneiras, eles se adoravam e se conheciam a cada quarta-feira. Proseavam e inventavam mil coisas. Cariocas e paulistas, juntos por acaso e unidos pela genialidade da qual dispunham. Chico, Toquinho, Tom e Vinícius... Uma elite das mais privilegiadas do mundo, sentada á mesa nove no centro de São Paulo. Eram, afinal, loucos como nós. Loucos que levaram suas idéias a sério.


Caption Post ao som de:

Chico Buarque - Lígia
Tom Jobim - Felicidade
Vinícius de Moraes - Valsa à ninguém
Toquinho - Tarde em Itapoã

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quarta-feira, outubro 13, 2004

O vestido, o laço, o ponche... As Donas da Noite

- Papai, como estou? - A inocência era tão evidente que nem seu olhar sereno a escondia
- Minha filha, você está ótima - Semre há o pai encorajador.Nenhuma noite era tão especial pras garotas quanto seu baile de debutantes. Bons tempos em que toda garota fazia quinze anos em um grande salão, com várias outras garotas vestidas rigorosamente iguais. Sem esquecer de seus pares, é claro. Todos bem alinhados, uma vez na vida ao menos.
E o baile transcorria normalmente. As pequenas princesas chegavam tão antes que os faxineiros do salão constantemente checavam os relógios, a se assegurarem que ainda faltavam três horas pra festa começar. Algumas, é claro, se valiam do truque de propositalmente se atrasar, a fim de ter certa atenção dos já presentes nos minutos após sua chegada. O problema era adivinhar o exato momento em que estariam todos sem assunto. Não raro entrava uma debutante cheia de si, vestidinho rosa e laço na cabeça, nariz empinado, e os convidados mal a notavam, já continuando o assunto. Essa talvez fosse a maior frustração de uma debutante: não ser percebida.
Nos bailes de debutante tinha de tudo. Os tios e tias que nunca aparecem, e invariavelmente alertam seus pais de como você está grande.
- Nossa, mas ela cresceu, né?
Os padrinhos e madrinhas que sempre dão presentes, e nunca acham que suas afilhadas realmente gostam deles até ganharem um beijo no final da festa.
- Adorei o presente, dindo!
Ao sair ele vai comentar ao pai da debutante:
- Ela me adora. Sempre me adorou.
As famílias de amigos dos pais, que normalmente vinham de longe e sabiam tudo da sua vida, sem que você faça a mínima idéia de quem são. Suas amigas vindo lhe cumprimentar com um sorriso levemente amarelo no rosto, pra virarem as costas e terem certeza: elas sempre foram mais lindas que você.
As filhas e filhos pequenos, que são ao mesmo tempo indispensáveis e ignoráveis. Sempre há a dupla de meninos que corre a festa inteira, pra no final se jogar no colo dos pais e sair dormindo; há também o grupo de quatro meninas que têm a impressão de estarem integradas ao grupo de debutantes. Elas concordam com tudo que qualquer menina vestida de rosa com laço na cabeça possa dizer e na saída do baile vão pedir:
- Mãe, posso comprar um laço? Eu sei que nunca usei mas eu sempre achei tão legal!
Uma boa festa de debutante deve ter salgadinhos frios e guaraná morno - se possível, da marca mais barata. Deve ter mesas jantando e outras não, por simples erros de cálculo. Deve ter a famosa tigela de ponche - ah, o ponche - de cor púrpura, com um suave toque etílico. É a maneira mais fácil de ficar bêbado em um baile como este, já que a cerveja está à temperatura ambiente e, portanto, intragável.
Uma boa festa de debutante tem que ter uma banda, é claro. Deve entrar quando o assunto estiver acabando e sair quando o ânimo acabar-se também. A chegada da banda deve ser acompanhada de uma microfonia ensurdecedora e um tropeço de um dos integrantes - se for o baixista, melhor. Ao saludarem os convidados e debutantes, ouvirão-se tosses desconfortáveis. A boa banda de baile começa tocando uma música dançante, a chamar os convidados pra pista. Seguindo em pequenos grupos de músicas com temas semelhantes, passarão por twist, dance, rap, forró, baião, romântico (neste momento um casal só sobrará à pista, e após serem levemente vaiados, um beijo atrapalhado acontecerá), axé, músicas velhas em geral.
A boa banda de baile faz uma pausa de quinze minutos, que normalmente dura vinte. Ao voltarem os convidados estarão de saco tão cheio que demorarão cerca de três músicas até os primeiros empolgados aparecerem na pista pra dançar.
Ao fim de sua apresentação, mescla-se alívio e tristeza. Ao sair, o baixista tropeça de novo, causando risadas do fundo do salão. A música eletrônica começa. Este é o início do fim
Um bom baile deve ter a mesa do comitê de organização, todos de sorriso aberto e olhos fechados ao desastre que acabaram de criar. Deve ter a mesa dos pais, com uma estranha disposição de casais que mal se conhecem e durante a festa trocaram telefones. A mesa dos excluídos, que têm pouca ligação com as debutantes ou os pais. Esta é a pior mesa, a menos animada, tendo apenas um casal que irá dançar a noite toda e ficar até o fim. E é claro, há a mesa das debutantes e seus pobres pares, que baterão em média quarenta fotos cada um. Terão que conhecer umas trinta pessoas, e sorrir pra todas
A boa festa acaba com os pais da última debutante falando com os do último par, normalmente sobre assuntos como o ciclismo e seus perigos, ou como os vendedores os convencem a comprar um aparador de bigode - estranhamente, nenhum dos dois tinha bigode. Ao fim, restam o pessoal da limpeza, a organizadora do evento já cansada e destruída, e o tal casal da mesa dos excluídos, que aparentemente tem forças pra mais uma dúzia de músicas:
- Gadê aguele bonje gue dava agueeee?
- Aguela moza de verde levou.
-Ôô dona Árvoreee!
Enfim, uma boa festa tem seu fim com o casal sendo expulso do salão e com a tigela de ponche já vazia sendo quebrada após a discussão. Ao fim de noite, a "dona árvore" jura pra si mesma que não fará isto nunca mais. E ano que vem, ela está lá denovo.
Le0...
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terça-feira, outubro 12, 2004

Os patos inconformados

É tão fácil aceitar, ou não seria? Certas coisas são porque são, e está acabado. Como um pato é um pato e sempre será um pato. Ele pode querer não aceitar o triste fardo, mas seu Quáck e suas três patas lhe dizem que ele é um pato, e sempre será.

Temos alguns dias no ano que nos são reservados, que fazem a existência um pouco valiosa. O pensamento lógico seria: Como alguém no mundo vai um dia dizer que não é mais criança, se ainda gosta da graça que vê e ainda quer ser tratado com alegria?
É incrível, mas mais uma vez parecemos esquecer que seríamos crianças para sempre, se quiséssemos. É claro que a evolução natural nos faz cada dia diferentes, mas as cores não se perdem por vontade própria. Quem vê em preto e branco já um dia rejeitou uma rosa ou olhos azuis que pediam um beijo.
"Não, eu não sou mais criança". A fase de auto-afirmação como um pré-adolescente é algo intrigante, mas fundamentado na pura vontade de ser alguém que não se é. Tão óbvio seria aceitarmos o presente e brincarmos com a última Barbie, mas a solução mais à mão pare)ce ser esnobar a vontade da mãe e ir ao shopping se achando..

Um feliz dia das crianças aos patinhos e patinhas por aí, e que como eu, nunca deixem de ser patos!

Le0

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Senhoras e Senhores, Respeitável Público: Abram aspas!

É... de militante ferrenho contra os flogs e manifestações que os valessem, passei a um visitador e de lá a um "postador" mais do que freqüente. Agora até eu tenho meu canto pra escrever o que quiser. Divertido né?

O nome é uma merda, eu sei... mas com o tempo me acostumo e os poucos leitores que também se acostumem, afinal não consegui pegar o "abreaspas"ou o "versosbrancos"... infelizmente mesmo.

Para um primeiro post, fica por aqui..


Le0