Divina Aduana - segunda parte
- Meu senhor, temos o prazer de lhe anunciar que o senhor tem uma ficha quase limpa.- Ah, obrigado minha cara. Sirvo ao próximo e abracei ao sacerdócio quando criança.
- Muitos poderiam aprender com isto. Obrigado. Próximo!
Ainda fitando o infinito, sentiu um empurrão por trás. Era a sua vez. Era a hora de descobrir o que era tudo aquilo.
- Senhor Hugo Menezes Castro Filho, 48 anos, brasileiro.
- Sim, sou eu.
- Sua identificação terrena e sua ficha preenchida, por favor?
- Carteira de identidade? Tenho aqui. Não ganhei ficha, moça. Tinha que ter uma ficha?
- Certo, certo. Mais um desavisado. Senhor, o pós-vida o espera, ande logo e pegue uma ficha com estes homens ali - e apontava para a esquerda de Hugo.
- Ahm, certo, certo.
Desnorteado com a expressão pós-vida, ele titumbeou até o fim da sala. Pegou uma ficha e uma caneta, e procurou em vão algum banco ou cadeira. A sala era completamene branca e vazia! Apoiando a folha na parede, começou a preencher os dados. Nome, idade, RG e CPF. Filiação, local de nascença. Sexo, endereço, email, motivo de morte. Motivo de morte?!? Ao reler pela terceira vez e certificar-se que estava mesmo lendo aquilo, foi de encontro a um homem baixinho de jaleco branco, com cara de responsável pelas fichas.
- Senhor, eu morri?
- Hehehe - a risada era desconfortante - lá vamos nós de novo.
- Você sabe, senhor, a vida não dura pra sempre. Por motivos quaisquer, um dia ela acaba, sabe. E quando ela acaba, o armazenamento do espírito de cada um é responsabilidade da nossa empresa. Com certeza o senhor se lembra o motivo de sua passagem, certo? Sofria de alguma patologia letal? Tinha hábitos radicais? Pense.
Hugo só se lembrava de estar em seu carro, em uma rodovia quase vazia. Um vulto enorme e escuro se aproximava. Sim! Um caminhão! Agora ele lembrava.
- Foi um acidente de carro! Me lembro nitidamente.
- Muito bem. Então preencha rápido que o trem logo parte, senhor.
- Mas trem praonde?
Era tarde. O senhor havia sido chamado por outro baixinho de jaleco, que controlava as catracas que davam acesso ao trem. Seriam eles todos levados pro céu? Estaríam já no céu? Melhor preencher a ficha antes de divagar.
Já de volta à fila, parecia mais calmo. Ouvia as conversas mais nitidamente, distinguia os sons. Um tumulto se formou dois guichês à sua direita, e se esticando ele pôde ver.
- Senhor, desculpe lhe informar, mas... não toque em mim!
- Moça tu não sabe, eu tenho que entrar de qualquer jeito!
- Por favor, acompanhe os senhores à sua direita.
- O que? Não! Eles me levam direto pra fora! Não!
Dois brutamontes com cara de seminaristas o seguraram pelos braços. Aos gritos, tentava inutilmente revidar. Atravessaram sem piedade uma porta ao lado da Sala Intermediária. Àcima dela, os dizeres: Subsolo.
- Cara, esse aí vai pecisar de protetor solar. Lá embaixo deve ser quente, cara.
- Quê? Lá embaixo seria.. não pode ser!
- Próximo!
.................... Continua ................

3 Comments:
Uma pergunta simples:
vc ja tem estes textos prontos ou ele vão surgindo na hora, na frente do computador?
Beijo
Luiza
ps. não preciso dizer que estou ansiosa pelo final, não é??
bah leo, adorei o texto! onde aprendesse a ficar tão profissional? hauhauah
=****
deba
Tô esperando o final...
beijos
Pati
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