Até quis
Em dias de conturbada memória, buscando o que não devia, encontrei-me procurando inspiração nos lugares errados.Assim como todo grande escritor, tentei criar um cenário perfeito para um desenrolar longo e detalhista. Queria ter meu próprio Arthur Dent, vagando o espaço em busca de novas sátiras da humanidade. Queria um Bo Didley só pra mim, com a fama de mau e a genialidade de Harper Lee.
Abri a caixa de texto já descrente. Comcecei a descrever o inebriante verão francês, as vinícolas e as casas de campo praticamente atemporais, tamanha a beleza da arquitetura retrô; mas parei por aí. Um dia talvez continue.
Tentei seguir uma linha mais "Phileas Fogg", idealizando um fidalgo inglês à brasileira, que sai toda manhã para tomar café em hotéis e encontrar-se com a alta aristocracia à fim de um bom Porto. Não consegui e desisti, já pensando na próxima investida.
Em busca de algo um tanto mais real, fui atrás da cinza e fria N.Y.C, nos anos 80. Saído de uma das únicas famílias brancas do Bronx, o jovem era tipicamente um produto industrializado do que um americano haveria de ser. Exalava incerteza, mas a encobria com postura e frases feitas. Foi aí que parei e decidi retrogredir um pouco, afinal estava virando clichê além da conta.
Me aventurei por uns três minutos no campo das críticas políticas e sociais, logo as esquecendo. Já fiz tanto disso que não há tanta coisa a ser discutida, afinal. Relatar o quotidiano, o satirizando e apontando o que todos nós fazemos sem perceber? É um caminho. Queria algo diferente ainda.
Mal havia pensado em desistir, me veio à cabeça a idéia de uma conspiração secreta, algo no melhor estilo George Orwell ou Dan Brown, com informações que tremeriam as bases das estruturas mundiais. Inevitavel foi, infelizmente, a guinada para o texto humorado e espirituoso. Em menos de cinco minutos, descrevia uma comunidade de dezessete anões ioguslavos e suas infalíveis técnicas de paralização do inimigo à cócegas.
Seja meu próprio fidalgo, meu detetive não-tão-secreto, meu conto de amor rompido ou a reflexão de sempre, não fui longe. Seja o velho e bom Herói para uma guerra, uma situação tão normal quanto inusitada ou um poema de livreto, me esqueci do que viria logo após as primeiras linhas.
Até comecei a escrever sobre o quanto queria fazer um bom texto, sobre como quis achar motivo pra escrever e acabei criando a "metalinguística textual" por acidente. Vagueei por um tempo nas idéias passadas e as relatei. Tentei de tudo pra não deixá-lo massante. Fui atrás de uma singela razão pra escrever sobre o que não havia conseguido escrever. Fiz tudo isso. Ou teria feito, mas desisti.
Leonard Schmitz
http://www.fotolog.net/brisk

3 Comments:
Não proucre personagens para escrever, nem histórias para serem contadas. Estas e aqueles que te procuram pra ser escritas. Ao menos dizem que é assim.
Também já quis um personagem só meu, com as minhas idéias, com um jeito atípico. Juro que tentei, mas eles ainda não chegaram.
Quem sabe daqui ha uns vinte anos, menos ou mais, eu escrevo um livro sobre um advogado qualquer, num país qualquer, numa história longe de ser qualquer. Quem sabe.. seria uma realização e tanto para mim, mas ainda não está na hora.
Queria não colocar quem comentou, pq adoro saber se você sabe qndo sou eu, mãs a regra é clara, preciso assinar.
Então, primo, não te preocupa, que o teu personagem ainda vai chegar.. talvez vestindo um terno italiano, ou quem sabe, um bermudão rasgado. Talvez ele venha do campo, ou até duma empresa quase maior do mundo..
Bem, espera que essas coisas ele que vai te contar, só esperar!
Beijos Primãão
Boa viagem
Pati
Na linha da Pati...
Houve um tempo em que eu escrevia todo dia! Eu não sei, hoje, como conseguia. Talvez não escrevesse com tanto cuidado como escrevo hoje, ainda que hoje não possa considerar bons meus textos.
Bem, depois de um tempo, passei a escrever menos, e pior ainda foi a época em que me encontrei indignado por não saber O QUE escrever! Um amigo que não via há muito então me veio, e sem querer recitou o que eu precisava ouvir. Este tinha ouvido tal dito de um escritor com algum renome no mundo dos "escritores anônimos". Com algumas obras publicadas e amigo quase íntimo de Drummond de Andrade, este escritor disse e me foram recitadas as simples palavras, em forma de pergunta: "Por que você acha que um grande escritor demora 3 anos para lançar um livro de 100 páginas? E por que, mais ainda, uma banda de 10 anos possui em média 6 discos de carreira?".
Bem, cada um que tenha a sua resposta!
Um abraço,
Rique
A estrutura ficou parecida com um texto do Drummond (registrado na Folha de São Paulo, mais tarde em um livro que não me recordo o nome). Era "Hoje não tem crônica" o nome. Não tenho lá muita certeza do que escrevi ali.
Mas eu gostei, ficou sucinto, e, divertido até.
[]'s e tenha uma ótima semana Leo (apesar de todos os velhos habitos)
...!
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