Samba pra quatro, por favor.
Mal sabiam os assíduos freqüentadores do Botecchio - infame brincadeirinha de raízes italianas, típica dos paulistanos da década de 60 - que à mesa 09, junto à porta de entrada, estava reunido um grupo de velhos amigos que muito tinham a conversar. Antonio, Fransisco, Vinícius e Pecci (que também era Antonio, chamado pelo sobrenome pra evitar confusões) tinham o ritual do encontro às quartas à noite. Cerveja, futebol, mulheres, sinuca e samba; viviam a seguir o que sabiamente denominavam o pentágono perfeito.- Desce mais uma, Almeida - O garçom Almeida era parte do folclore daquele grupo. Era motivo de chacota por gostar de Agnaldo Timóteo (os amigos não o perdoavam).
Os quatro tinham semanas diferentes e agitadas e os encontros traziam à tona seus lados mais infantis. O violão nunca faltava, é claro; às vezes compunham ali mesmo.
A influência era estranhamente recíproca entre todos eles. Dali, Antonio e Vinícius eram mais velhos, mas não importava. O humor sofisticado e a filosofia integrada às ideologias de todos os faziam cult sem eles mesmo quererem.
Nesta quarta-feira em particular, a TV Tupi exibia Corinthians e Vasco, para a alegria dos quatro. As atenções se desviavam do jogo para pedir mais uma rodada ou para comentar os atributos da bela senhora duas mesas ao lado.
- Tom, você que gosta de loira, vê se é de teu agrado
- Loiras, morenas, ruivas ... são belas e cheirosas, de meu agrado são todas!
Era engraçado como fluía a poesia e os versos rimados entre eles, quase sem querer. Quem via de fora não seguia as linhas de raciocínio, tamanha era a distinção destes senhores da nossa cultura. Ali, porém, estavam em meio aos "mortais", exercendo suas funções humanas. Beber, jogar, beber mais um pouco. Das nove às duas, duas e meia, a noite era deles e a preocupação era esquecida em casa.
Constragedor era quando o rádio tocava alguma de um dos quatro - o que ocorria umas cinco, seis vezes por noite. Ficavam os outros três a rir e cantar, chamando atenções por todo o bar.
Mal havia acabado o primeiro tempo, o som ambiente rompe o murmúrio com notas simples e belas:
"Quando, seu moço, nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar..." Neste instante viu-se os já consagrados olhos verdes se apertando e três outros pares de olhos se arregalando para sorrir convenientemente.
- Vamos Chico, canta junto! - Sempre quem iniciava as brincadeiras era"Antonio novo", como era carinhosamente chamado.
- Eu acho que já ouvi isso umas cinco vezes hoje - O cinismo de Vinícius destoava da suavidade com que versava em seus livros.
Passados os momentos de desconforto, um assunto qualquer os tomava por minutos, aumentando o consumo de cerveja e conseqüentemente o volume das risadas. Quem sabia o valor cultural sentado àquela mesa não parava de pensar: "como pode tanto talento em um metro quadrado? É quase injusto!"
Por ali ficavam a relembrar momentos e contar histórias. Junto deles poderiam estar Paulo, Nogueira, Elis. A conversa invariavelmente ia para o lado da política, e aí as divergências os faziam parar um pouco e acalmar os ânimos - afinal um acordo era praticamente impossível.
De tantas palavras, tantas notas e tantos sorrisos, o cansaço batia às portas de maneira homérica. Quatro boêmios que muitas vezes tinham de seguir certas regras formais demais. Não raro um deles abria seu peito à mesa e lhes contava o que havia passado, como se sentia. Tão amigos que eram, um problema não saía sem resolução daquela tradicional mesa nove.
De várias maneiras, eles se adoravam e se conheciam a cada quarta-feira. Proseavam e inventavam mil coisas. Cariocas e paulistas, juntos por acaso e unidos pela genialidade da qual dispunham. Chico, Toquinho, Tom e Vinícius... Uma elite das mais privilegiadas do mundo, sentada á mesa nove no centro de São Paulo. Eram, afinal, loucos como nós. Loucos que levaram suas idéias a sério.
Caption Post ao som de:
Chico Buarque - Lígia
Tom Jobim - Felicidade
Vinícius de Moraes - Valsa à ninguém
Toquinho - Tarde em Itapoã
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2 Comments:
Será que eles levaram as idéias a sério ou fomos nós quem levamos as idéias deles a sério? Ou, digamos, nossos pais! Apesar de que posso dizer, "sem medo de ser feliz", que foi por nossa causa! Afinal, seríamos "Como nossos pais" caso nosso tempo fosse o tempo deles! Apesar de que minha mãe gostava de Jovem Guarda... ai que tristeza (que nóis sentia, cada tábua que caía duía no coração...). ma va bene, neste mundo nada se é perfeito, somos apenas filhos de uma revolução, não é certo?! abraços, rique. punto.
www.engenharia.eti.br/eporquenao
Léo é o Cauê
Iradasso²²³²³²² o blog.
Me ajuda a fazer um?
Eu só fiz [F]log porque não sabia fazer [B]log ...
(é triste ser um incompetente virtual ...)
converso contigo sobre o assunto quando nos falarmos novamente ok?
Sério mesmo tu escreve bem pra caralho, de longe, muito melhor que eu
[]'s ae
...!
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