O vestido, o laço, o ponche... As Donas da Noite
- Papai, como estou? - A inocência era tão evidente que nem seu olhar sereno a escondia
- Minha filha, você está ótima - Semre há o pai encorajador.Nenhuma noite era tão especial pras garotas quanto seu baile de debutantes. Bons tempos em que toda garota fazia quinze anos em um grande salão, com várias outras garotas vestidas rigorosamente iguais. Sem esquecer de seus pares, é claro. Todos bem alinhados, uma vez na vida ao menos.
E o baile transcorria normalmente. As pequenas princesas chegavam tão antes que os faxineiros do salão constantemente checavam os relógios, a se assegurarem que ainda faltavam três horas pra festa começar. Algumas, é claro, se valiam do truque de propositalmente se atrasar, a fim de ter certa atenção dos já presentes nos minutos após sua chegada. O problema era adivinhar o exato momento em que estariam todos sem assunto. Não raro entrava uma debutante cheia de si, vestidinho rosa e laço na cabeça, nariz empinado, e os convidados mal a notavam, já continuando o assunto. Essa talvez fosse a maior frustração de uma debutante: não ser percebida.
Nos bailes de debutante tinha de tudo. Os tios e tias que nunca aparecem, e invariavelmente alertam seus pais de como você está grande.
- Nossa, mas ela cresceu, né?
Os padrinhos e madrinhas que sempre dão presentes, e nunca acham que suas afilhadas realmente gostam deles até ganharem um beijo no final da festa.
- Adorei o presente, dindo!
Ao sair ele vai comentar ao pai da debutante:
- Ela me adora. Sempre me adorou.
As famílias de amigos dos pais, que normalmente vinham de longe e sabiam tudo da sua vida, sem que você faça a mínima idéia de quem são. Suas amigas vindo lhe cumprimentar com um sorriso levemente amarelo no rosto, pra virarem as costas e terem certeza: elas sempre foram mais lindas que você.
As filhas e filhos pequenos, que são ao mesmo tempo indispensáveis e ignoráveis. Sempre há a dupla de meninos que corre a festa inteira, pra no final se jogar no colo dos pais e sair dormindo; há também o grupo de quatro meninas que têm a impressão de estarem integradas ao grupo de debutantes. Elas concordam com tudo que qualquer menina vestida de rosa com laço na cabeça possa dizer e na saída do baile vão pedir:
- Mãe, posso comprar um laço? Eu sei que nunca usei mas eu sempre achei tão legal!
Uma boa festa de debutante deve ter salgadinhos frios e guaraná morno - se possível, da marca mais barata. Deve ter mesas jantando e outras não, por simples erros de cálculo. Deve ter a famosa tigela de ponche - ah, o ponche - de cor púrpura, com um suave toque etílico. É a maneira mais fácil de ficar bêbado em um baile como este, já que a cerveja está à temperatura ambiente e, portanto, intragável.
Uma boa festa de debutante tem que ter uma banda, é claro. Deve entrar quando o assunto estiver acabando e sair quando o ânimo acabar-se também. A chegada da banda deve ser acompanhada de uma microfonia ensurdecedora e um tropeço de um dos integrantes - se for o baixista, melhor. Ao saludarem os convidados e debutantes, ouvirão-se tosses desconfortáveis. A boa banda de baile começa tocando uma música dançante, a chamar os convidados pra pista. Seguindo em pequenos grupos de músicas com temas semelhantes, passarão por twist, dance, rap, forró, baião, romântico (neste momento um casal só sobrará à pista, e após serem levemente vaiados, um beijo atrapalhado acontecerá), axé, músicas velhas em geral.
A boa banda de baile faz uma pausa de quinze minutos, que normalmente dura vinte. Ao voltarem os convidados estarão de saco tão cheio que demorarão cerca de três músicas até os primeiros empolgados aparecerem na pista pra dançar.
Ao fim de sua apresentação, mescla-se alívio e tristeza. Ao sair, o baixista tropeça de novo, causando risadas do fundo do salão. A música eletrônica começa. Este é o início do fim
Um bom baile deve ter a mesa do comitê de organização, todos de sorriso aberto e olhos fechados ao desastre que acabaram de criar. Deve ter a mesa dos pais, com uma estranha disposição de casais que mal se conhecem e durante a festa trocaram telefones. A mesa dos excluídos, que têm pouca ligação com as debutantes ou os pais. Esta é a pior mesa, a menos animada, tendo apenas um casal que irá dançar a noite toda e ficar até o fim. E é claro, há a mesa das debutantes e seus pobres pares, que baterão em média quarenta fotos cada um. Terão que conhecer umas trinta pessoas, e sorrir pra todas
A boa festa acaba com os pais da última debutante falando com os do último par, normalmente sobre assuntos como o ciclismo e seus perigos, ou como os vendedores os convencem a comprar um aparador de bigode - estranhamente, nenhum dos dois tinha bigode. Ao fim, restam o pessoal da limpeza, a organizadora do evento já cansada e destruída, e o tal casal da mesa dos excluídos, que aparentemente tem forças pra mais uma dúzia de músicas:
- Gadê aguele bonje gue dava agueeee?
- Aguela moza de verde levou.
-Ôô dona Árvoreee!
Enfim, uma boa festa tem seu fim com o casal sendo expulso do salão e com a tigela de ponche já vazia sendo quebrada após a discussão. Ao fim de noite, a "dona árvore" jura pra si mesma que não fará isto nunca mais. E ano que vem, ela está lá denovo.
Le0...

4 Comments:
Grande post, amigo. Adorei a influência - não disfarçada - de Veríssimo. Muito legal, já te falei.
Bom, se a sua reclamação era não receber nenhum comment nesse blog, estou aqui fazendo um, o.k?
Abraço, best!
ooolha!
agora todas as pessoas legais podem comentar também, néé?!
Puuxa.. teus textos são os the best of textos!
Se eu quiser deixar sem nome eu posso, né?!
Dúvido que você descubra quem que tá comentando! ¬¬
hahaha
Beixú primoo!
dificil adivinhar quem comentou, né?
realmente teus textos são os the best of textos!
orra ;~)
(eu comentei no teu fotolog sobre o texto! Não sabia que dava de comentar, dã!)
beijãão ;*
eh jao... mto grande
mais imagino que seja massa
ehaueahuoehauieaiue
abração leo
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