sábado, maio 07, 2005

A sua é de quê?

Demorei, mas convenci-me: participamos de esclavagismo moral. Digo nós, referindo-me a todos, sem distinção. Não há clara escapatória contra imposições de intenção discutível, assim como não enxergo saída do aparelho moderador sem exclusão mais abrangente - até demais.

Por uma ótima causa, o ciclista seis vezes campeão da volta da França Lance Armstrong - recuperado de leucemia - abriu a fundação Livestrong against cancer, doando parte de suas conquistas para clínicas especializadas. Como tática marqueteira/altruísta, lançou a Yellow Wristband, como é chamada. Uma simplória pulseira de borracha amarela, made in China. Pelo ultra abusivo preço de 1 (um, é.. um!) dólar, o cidadão comum ajuda as formas normais de câncer e mostra a todos que é militante. Fez tanto sucesso que inspirou as famosas Stand up, speak up da Nike, e a Tsunami Aid (de cor verde limão). Embalada pela moda de rápida pulverização, a Nike lançou diversos modelos e cores, tendo o basquete como tema central e vestindo seus jogadores endorsados com as devidas pulseirinhas.

O que nos Estados Unidos fez sucesso, no mundo fará; não é isso? Se não for, há de ser. Pela Europa, as wristbands se espalharam como pão na praça de São Pedro. Por todos os cantos, jogadores vestem preto e branco no pulso, aderindo à causa. O engraçado disso tudo acontece logo aqui, no Brasil. Por trinta, quarenta reais, o ávido consumidor adquire sua Livestrong. Abuso? Ou uma tentativa não tão frustrada de elitizar um adereço puramente beneficiente? Minha resposta é: mania brasileira de idolatrismo americano. Isso ainda somado à mania mais brasileira ainda de crítica aos poderes supremos.:

- Ó, ó. Até tu, cara? Essa pulseira aí, meu.. ajudando os americano lá. Vai dar valor ao que é nosso po!
- Calmaí. Quer dizer que o câncer daqui é mais nobre que o de lá?
- Ah cara, tu compra pra fazer crescer mais ainda aquela superpotência
- Meu dinheiro vai praonde quero eu, certo? Quero ajudar portadores de câncer mas não tenho muito. Gastando míseros três reais o que eu faço aqui? No máximo pego o ônibus até a portaria da clínica. Deixa de preconceito e vê se apóia a atitude do sujeito, seu revolucionário sem causa.
- Ah vá tomar...

-------- Linguajar censurado, de acordo com a política da casa ---------

Interessante que, ao verem em meu pulso a amarelinha, sempre surge a pergunta:

- Ah essa é aquela que cada cor é uma doença, né?
- É, meu filho, é.

AIDS, Câncer, Vítimas do tsunami na Indonésia, Racismo. Causas nobres demais pra sofrerem plágio descarado. Aos camelôs, cores diversas dão o toque vivo. Pulseiras de todas as cores livestrong, diz o anúncio. O quê? Diversificação e propaganda enganosa, da pior espécie. Daqui a pouco presenciaremos o casal que se encontra na balada:

- Oi gatinha. Gostei da pulseira! É de quê?
- A minha é contra tosse e rinite, e a sua?
- Torcicolo e desconfortos do sono.
- Uhul essa é nova pra mim
- Ah é a moda agora, gatinha.
- Irado!
- Só..

Uma idéia que deu certo demais, infelizmente não conteve o aproveitamento dos parasitas publicitários. É uma pena, é uma pena.

E a sua, é de quê?


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Leonard Schmitz

2 Comments:

At 6:16 PM, Anonymous Anônimo said...

o leo como sempre escrevendo muito bem! adorei teu texto guri, a perguiça eh fogo mas vou entrar mais vezes! hauha
=****

 
At 11:29 AM, Anonymous Anônimo said...

leOOOOOOOOOOOOOOO
nossa
ta ai o motivo de eu não ter pulseirinhaS!
ahuahuhauhau
beijo gurii

 

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