segunda-feira, abril 18, 2005

Quarto de poeta

Nada mais que uma fresta clareava o simplório fundo de sala. Às paredes, traços disformes davam mórbida vida ao preto e ao branco. Dispondo-se sem ordem e sentido quaisquer, a falta de cores delineava os apertados limites do aposento. A luz era branda, penumbra dominante que transparecia o pó; silhuetas confundiam-se no suave vaivém.

Indefinidos cortes em mogno suportavam toneladas de peso. Por entre a já sem vida luminária soerguiam-se almas vãs que, silenciosas, contorciam-se a flutuar como num Bolschoi. Abaixo delas, anos de experiência transbordavam angústia. Folhas mortas ainda significativas carregavam dúvidas, súplicas, perguntas sem resposta. Guerras travadas, desmoronamento de sociedades inteiras ali à mesa se punham. Não sem um porquê, o eflúvio de Porto espargia e dava o toque exaurido ao quarto.

Roupas amassadas empilhavam-se aos cantos. Sóbrio chapéu, bengala negra e indiferente recostavam em paz. Madeira rangia. A umidade tomava o ambiente como a um pós-chuva de verão; o pouco espaço abafava o cômodo escuro. Por sobre lenços multicolores, estendia-se um poço de conhecimento. Descansava como nunca antes, mente conturbada de memórias e idéias. Dormia.

Fora responsável por abalos na estrutura sócio-econômica, mas não percebido. Havia deixado à humanidade incríveis relatos, combinações o mais magnânimas possível. Porém sem reconhecimento. Sequer era querido por entes próximos; taxavam-no sem piedade, quanto mais razão. Poucos houveram por bem tomar decisões tão arriscadas. Sucesso efêmero, pequeno.

Por anos o apertado quarto de poeta servira de recanto da inteligência. Agora padecia junto a seu amo. Oito décadas de história muito bem contada que esvaíam-se sem rastro de plausível sucesso - tão almejado em vida - , momento algum lhe arrependeu. Desde quando, à sua décima primavera, contara a seu diário como havia sido seu primeiro beijo (maçãs do rosto coradas ao confidenciar os mais íntimos e instínsecos pensamentos) até seu último ensaio, sob o título de "Mil coisas que contarei à Ernesto Pádua" - onde previu seu descanso e improvisou um pós-vida organizado e tragicômico -, o mestre procurou enfeitiçar cada palavra de seu legado.

E, por mais que almas tão vãs quanto ingênuas tentem apaziguar ânimos, foi-se o poço de idéias. Foi-se o senhor, o mestre. Foi-se e não se foi sem registrar o que passou por sua mente. Agora, deita em paz e relaxa com calma. Que não só mais oito décadas o esperam. E o papo com Ernesto Pádua parece ir além do esperado.

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Leonard Schmitz

(pessoal.. seilá se há um pessoal que lê por aqui. Enfim voltei. Comecei o textículo há um tempo e acabei agora. Seilá também.. só pra atualizar. Beijos)