quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Divina Aduana - quinta parte

Hugo nunca fora um sucesso com as mulheres. Havia conquistado algumas garotas enquanto estudava. Bons tempos de garoto, pensava ele. E ainda acrescentava que era um Bon Vivant. Na verdade, não fazia a mínima idéia do que seria um Bon Vivant. Os poucos livros que seu pai lhe obrigou a ler traziam a expressão em itálico e adjetivavam o protagonista heróico da história. A conclusão lógica é que algo ruim não haveria de ser. Pois bem, era então um Bon Vivant.

E agora estava ali, em um trem que saíra de uma estação aparentemente no seu pós-vida, endereçada à um lugar longe demais pra caber na preocupação de Hugo. Mais fácil preocupar-se em decifrar cada centímetro de Cecília. Os olhos de jasmin, a pele que lembrava um jambo clareado; levemente maqueada, o suficiente pra exaltar a discrição. Seus trejeitos lhe eram hipnotizantes, prestava atenção como em uma peça de Polansky.

- E então, demorou muito pra se acostumar com o lugar? - Cecília havia quebrado o silêncio com uma voz tão suave que Hugo mal se desconcentrou da admiração de seus traços.
- Na verdade eu ainda não tenho certeza de tudo por aqui.
- Parece óbvio, não? As perguntas que sejam feitas, mas a resposta primitiva parece estar chegando.
- Resposta?
- É! A mais importante pergunta: Para aonde vamos, por que estamos aqui?

Como em um clarão causado por explosão e combustão de magnésio, na mente de Hugo formaram-se idéias antes disconexas. Haveriam mais céus para os incrédulos no cristianismo? Estariam indo para o céu os que realmente acreditavam, ou todos aqueles que passaram por todo o processo de catolicismo - batismo, comunhão, crisma... - ? Quase nada fazia sentido.

Em meio à perdição nas mais longínquas linhas de pensamento Hugo não ouvia o chamado de Cecília. Sua educação a fazia tomar cuidado para não exagerar na altura da voz, assim como na firmeza do toque. Com mais algumas tentativas, Hugo parecia acordado de seu sétimo sono.

- Oi, oi?
- Olha! - e apontava para a única e grande janela que iluminava a cabine.

De sopetão, Hugo fez menção de se levantar. Talvez por falta de força, talvez por puro susto, ele não o fez. O que ele via através do vidro da cabine parecia o levar de volta para seu melhor sonho bom, de volta a Salvador. Descendo as ruas ainda sem asfalto, ele era acompanhado por três amigos que, com os chinelos às mãos, gritavam em cumprimento às senhoras que nas janelas se debruçavam à fim de se inteirar das últimas fofocas. A corrida tradicional passava pelos becos e chegava quase à praia. Foram os melhores momentos da sua vida. Mas nada, nada que havia visto ou vivido se comparava ao que se estendia à sua frente.

Uma imensidão de verde se estendia por todos os lados do trem. Uma fina chuva dava à toda a mata um tom de serenidade. Pelo chão havia flores das mais coloridas; Hugo quase sentia seu aroma. Em toda sua infância, Hugo imaginou como seria estar no meio da Amazônia. Agora ele presenciava algo que, pensou ele, é muito melhor que qualquer floresta no mundo! (Estariam eles fora do mundo?)

Atenta e capiciosamente ele examinava as minúcias da paisagem mais bela que havia visto. A mata foi se abrindo e gradualmente as folhas foram desaparecendo. À medida que o trem andava a floresta parecia estar chegando ao seu fim. E o verde subitamente dava lugar aos tons de amarelo. Um amarelo mais brilhante que o que se via normalmente. Era dourado! Hugo estava entrando em uma fortaleza feita inteiramente de ouro!

- Meu Deus do céu - deixou escapar enquanto observava os quilates à sua frente.
- É lindo mesmo. E parece que cada um tem uma história mais interessante. - Cecília também entrara na conversa.
- Cada um?
- É. Cada lindo pássaro destes. Os azuis são meus preferidos, sempre foram. E justo eles estão em mais abundância!

Hugo não entendia nada. Chegou mais uma vez e confirmou o ouro que lhe rodeava. Não enxergava pássaros ou coisa que os valha! Tudo o que via era o frio e duro ouro. Mas para ele era melhor que qualquer bando de aves, por mais cintilante que pudessem parecer.

Neste momento, a mesma mulher que havia lhes trazido a comida entrou na cabine para recolher os pratos vazios. Ao ver o impasse entre o casal que se olhava com desconserto, tratou logo de explicar a situação.

- Meus senhores, vejo que não entendem o que se passa. Pois bem, estamos à poucos metros da alfândega celeste. O chamado Guichê lhes deu carteirinhas de acesso para o Portal. O Portal é sua passagem para dentro. O que vocês estão vendo é o paraíso. Para cada um, ele assume a forma mais impressionante. Muitas vezes mais de uma forma, inclusive.

Um singelo "Ah" foi exclamado por ambos Hugo e Cecília.

- E o que a senhora vê? - Cecília tinha a arrogância de sua família e não poupava perguntas.
- Eu? Ah, minha senhora, eu há tempos vejo o que realmente há nestes portais. Sem fantasias e agrados, apenas o que está ali na realidade. Um dia todos vocês entenderão.

Neste momento o trem de súbito parou. Cecília puxou Hugo pelo braço e o levou até a porta do trem, aonde puderam confirmar o conflito de visões. Cada um via o que mais lhe pareceria o paraíso. Riram das místicas peças que aquele lugar lhes estava pregando. À sua frente, porém, viam a mesma coisa. Imensas grades de ferro lentamente se abriam, e ao fundo via-se o simples letreiro:

Alfândega Celeste.

Com poucas cores e sem enfeites. A população que saía do trem dirigia-se frenéticamente ao que parecia ser o Portal. O que mais haveria separando-os do verdadeiro paraíso? Pela primeira vez desde que havia se formado na faculdade, Hugo ponderou:

- Minha vida está apenas começando...


-------------------------- Um dia, continua. Um dia... ----------------------------------

Gente, deu de Hugo, deu de céu. Quase não tenho tempo pra postar aqui. Depois de começar com essa história me vi preso nela de uma tal maneira que há tempos perdi o tesão. É claro que tem muito mais pra ser escrito. Já tenho outros capítulos em mente. Mas por enquanto, fiquem com as primeiras 5 partes.

Leonard Ziesemer Schmitz