sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Divina Aduana - Parte 4

O dia havia apenas começado e Hugo já tinha motivos pra sorrir. Sua vizinha de cima, a dona Amélia, havia se mudado e, conseqüentemente, levado suas reclamações consigo. Feliz por acordar e poder cantar no chuveiro sem ouvir protestos, Hugo previu um dia bom.

A vista de seu apartamento em um subúrbio soteropolitano não era das melhores. Casas tradicionais estendiam-se à sua frente, como um corredor que o levava de volta ao século XVII. Seu carro - um Monza '84 cor de chumbo a álcool - não o ajudava muito, principalmente em manhãs frias como aquela.

- Hoje nada me tira o bom humor - pensava enquanto puxava insistentemente o afogador do carro.

Alguns minutos e algumas desafogadas depois, o carro finalmente partiu e sua jornada para o trabalho se iniciava.
Hugo não morava tão longe do trabalho. Mas precisava do carro, pois o caminho era sinuoso e intransitável à pé.

Mantendo os oitenta por hora, Hugo tinha firmeza no volante. Foi quando um vulto inesperado passou muito mais rápido que ele, pela esquerda. Um esportivo preto, marca japonesa. Sem prestar muita atenção - nunca fora aficcionado por carros -, mal viu o outro esportivo, que desta vez passava-lhe pelo acostamento. Um pega, só pode ser.. pensou enquanto endireitava o carro na pista central. Foi quando não pôde evitar; um terceiro esportivo tocou sua traseira, fazendo-o derrapar e entrar pela contramão. Neste exato momento, um caminhão de carga se aproximava e não conseguiu frear a tempo. Tudo ficou escuro, o tempo parou.

E então ele acordou com um sopro gentil em seu ouvido.

- Seu Hugo? Hm.. Alô?
- Ah ahm? Quê? Ah sim, sim.
- O serviço de bordo está pra começar. Achei melhor acordar-lhe
- Ah, obrigado.

Cecília o havia despertado. Seu perfume, Hugo sentia agora, era adocicado e misterioso. Fazia-o sentir vontade de perder-se em seu pescoço, à fim de descobrir que aroma era aquele.
Uma voz ecoou pela cabine onde os dois se sentavam.

- Senhores, algo pra comer ou beber?
- Sim, por favor. O que teríamos?
- Qualquer coisa, senhora. Algo?

Hugo antecipou-se e decidiu brincar com a comissária, que parecia tão prestativa.

- Eu gostaria de um frango ao molho de manga, por favor.
- Sim senhor, algo pra beber?
- Carveaux mon belle, ano 1925 por favor
- Meu senhor, desculpe-me mas os Carveaux mon belle não foram fabricados durante as décadas de 20, 30 e 40, devido à Guerra e problemas territorias.

Hugo sentiu-se inferior, sem demonstrar. Queria tanto saber se a moça falava a verdade! Tinha em casa o livro "Vinhos de todos os tempos", onde encontraria respostas pra tudo no mundo dos enólogos, somelières, e toda aquela baboseira. Infelizmente o livro passara seis anos fechado em sua mesa de centro. Por o livro logo ali indicava a sapiência sobre o assunto, pensava Hugo. Sem perder a falsa altivez, desencaminhou e tomou um rumo sem riscos.

- Certo. Dê-me uma coca então.
- Ok. E para a senhora?
- Uma Ceasar's Salad e uma água com gás.
- Muito bem, aqui está.

O espanto pareceu ser mais interessante que a aparência do que saía do pequeno carrinho empurrado pela comissária de bordo. Uma bandeija razoavelmente grande, com um frango dourado pelo molho de manga, saía de dentro do carrinho. Pelo outro lado, um prato colorido de salada aparecia sem cerimônia. As bebidas foram derramadas nos copos, da mesma jarra. Estavam, como concluíram depois, finalmente no paraíso.

-------------------- Continua... -------------------------------------------




Gente, eu sei que estou me demorando pra atualizar estas partes. Mas escrevo na hora de postar, em poucos minutos. Então espero inspirar-me, ok? Vou lhes avisando que a história não terá seu fim aqui. Vou deixá-la aberta, ok?

Obrigado.