terça-feira, novembro 16, 2004

Cabelo brilhoso, santo baixado.

O Murilo era dos ocupados. No time de futebol era cabeça-de-área, pra aproveitar a viagem e levantar os já barrigudos amigos. Quem pegava a bola em sua direção já programava o sábado e o domingo pra descansar a perna torcida.

- Ó o Murilão, Higor!
- Vai, pega essa droga dessa bola vai Murilo.

Tinha na gaveta o contrato vitalício que fizera anos antes com a Maracujina. Era seu melhor cliente, veja só. Era o único possuidor brasileiro do Psycard, que lhe dava direito à consultas em psicanalistas em todo o território do ABC paulista e agregados. Há quem diga que já fora um rapaz bem humorado, há quem diga que é lenda.

Foi numa destas sextas-feiras agitadas, depois do futebol, que Murilo chegou em casa com as chuteiras à mão, sem camisa e de cabelos despenteados. Sua mulher Neuzinha já havia preparado o jantar, e cumprimentou-o no subir das escadas

- Oi querido. Jogo bom?
- Não queria pizza pro jantar.
- Mas querido..
- NÃO queria pizza!

Neuza achou melhor não interromplê-lo. Sempre achava. Da última vez que decidiu manter uma discussão ela acabou perdendo Hamlet, o gato da família . O Murilão era assim: não calou, eu te calo.

Ao entrar no banho, praguejou a água fria, o sabonete no chão, praguejou o cachorro que entrava ali pra acompanhar o motivo de tanto barulho. Deslizava - ou melhor, afundava - o sabonete com força contra a pele, ensaboava-se com a vontade de um ecoturista voltando da Bolívia.
Pôs o xampu 3 em 1 e não conseguiu espuma. Bravejou e investiu pela segunda vez, agora com sucesso. Tinha a expressão facial de Hernandez, o guia ecoturístico boliviano, após a terceira jornada do fim de semana.

Foi ao virar o frasco de xampu que cruzou o olhar à frase: Deixar nos cabelos por no mínimo 5 minutos. Quem tem 5 minutos pra um condicionador? Não tinha tanto tempo nem pra sua mulher, que diria para o pobre Head & Shoulders! Mas em respeito aos amigos que lhe diziam pra relaxar mais, decidiu esperar os ditos 5 minutos.

Primeiro encostou-se na parede e esperou. Passados 6 segundos, olhou no relógio - nem pro banho ele o tirava - e constatou que ainda faltava muito. Mas muito mesmo. Há anos não tinha cinco minutos livres - e logo cinco minutos tão monótonos!

De repente veio-lhe um vulto, um jato de consciência como há muito não lhe ocorria: Por que diabos havia dois xampus diferentes em sua prateleira? Por que sua escova de dentes tinha o George Foreman na embalagem? Logo, vaneou os pensamentos pra fora do banheiro. A TV estava ligada, sem expectadores. Por quê? Ele não sabia.

Como os Simpsons nunca envelheciam? Michael Jackson realmente teve Vitiligo? Qual é, meu deus do céu, a diferença entre TDMA e CDMA e qual delas é mais prática? O.J. realmente era inocente? Al Pacino e Robert DeNiro são a mesma pessoa? O bombardeio de dúvidas lhe veio como nunca antes havia. Eram tantas coisas além do seu cubículo na repartição, tanto assunto não resolvido; e tão pouco tempo pra resolvê-los!

O que Zezinho, Huguinho e Luizinho são do Pato Donald e por que ele não se casa de uma vez com a Margarida? Michael Dell realmente inventou a tecla homônima? Que forças maiores fizeram Jânio renunciar? Se seleção havia mesmo perdido o encanto na final contra a França? E quem, pelo amor de deus QUEM era o responsável pelas contratações da EMI Records e quando ouviu Marlon & Maicon nem hesitou ao dizer: "Isso vai ser um sucesso!" ?? Pra tudo isso não havia resposta, Murilo concordou consigo mesmo.

Tantas inexistências no próprio ser, chegou a dizer em um momento mais dramático. São cinco minutos que podem mudar a vida de um cidadão, diz o já amolecido Murilão. Ao olhar no relógio, porém, viu que haviam se passado apenas três. Em honra à sua enxurrada de novo ser vindo à toda, manteve-se firme. Por uns 15 segundos. Aí desligou o chuveiro e saiu, sem peso na consciência.

Desceu as escadas quase que saltitando, tão despreocupado que estava com a vida. Encontrou o filho o esperando, pizza à mesa e sorrisos aos respectivos rostos. Desceu ávido e dirigiu-se à lavanderia. Pôs suas roupas na máquina e ia saindo da cozinha quando a mulher o interrompeu:

- Querido, pensei que tinha melhorado, pelo que vi do seu jeito.
- Estou como nunca estive, Neuza Maria. Acho que vejo cor aonde não via antes.
- Que poético, amor. Agora senta e conta como foi essa viagem repentina.
- Eu não. Já disse que não quero pizza, porra!

Leonard Ziesemer Schmitz

2 Comments:

At 9:54 PM, Anonymous Anônimo said...

Cara! Como alguém tem imaginação praquelas perguntas?
E elas são mto boas, mas eu jamais pensaria assim depois de um jogo de futebol, aliás.. quem precisa jogar futebol, pra dizer que não colocaria essas dúvidas em palavras?
Murilão, Murilão, néé?!
Viu, Liou?! Você pode desenvolver um personagem que tem dúvidas bizarras, e ao mesmo tempo muito boas...
Como diria meu (agora nosso) amigo Rique.. CLAP CLAP CLAP!
haha

Pati
(http://www.patiii.weblogger.com.br)

 
At 6:08 PM, Blogger Cau Marques said...

PO
Murilão me lembrou o Clébão, ou o "Procurei"
pobre Neusa
hauhaua
[]'s Leo, otimo conto
...!

 

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