domingo, novembro 28, 2004

Baralho Batuta

- Bati.
- Bateu nada! Avisa e depois fala que é blefe, Nonato. Sabe que odeio isso!

O Nonato tinha costume de achar graça nessas coisinhas.

- Não, dessa vez eu bati, docinho.
- Odeio quando me chamas de docinho.
- É você quem pediu!
- Tá mas de agora em diante odeio.
- Mas, Martinha...

A Marta tinha costume de perder a razão nas discussões.
Após comprovarem que o Nonato realmente tinha batido, Marta fechou a cara mas continuou o jogo.

- Não parem por ele, vamos ver quem é o segundo!

A canastra com coca era o sábado da família. Nonato e Marta, seu irmão Juca e a namorada Tina, e a irmã asmática Lúcia que morava com eles. Não queriam festa, nem nada. O bom era a canastra com coca. Certas vezes tentaram ser sociáveis e ir à jantares e encontros. Mas infelizmente acabavam com o litrão de coca na mão, perguntando:

- Cadê o baralho?

A Tina tinha jogo pra bater, mas sabia que a Marta ficava louca quando não era nem segunda, então segurou. E o pior é que a Marta era muito ruim. E ainda acabava logo com a coca.

- Vamos, amor. Eu já tenho bom jogo, joga logo!
- Acalma aí, bêibe. Acho que vou pôr um Caetano no Estéreo
- Não põe nada e joga logo!

A Marta ignorou o novo Estéreo que o Juca fazia questão de mostrar. Ele tinha bandeija pra três CDs! O Juca chamou os amigos prum churrasco e expos o Estéreo na sala, todo orgulhoso:

- Sabem, ele tem bandeija pra três CDs
- Mas como eles ficam trocando?
- Ah, é sistema americano. Um tal de tchêngin sístem.
- Poxa, batuta

O Juca tinha poucos amigos. E os poucos que tinham ainda usavam expressões como "batuta".

- João Carlos Alende... jogas ou não?
- Calma mana, tenho que pensar bem.
- Canastra é jogo jogado, não jogo falado!
- Fica calma mana! Um bom jogador pensa antes de se arrepender
- Pára de lero e joga essa joça de uma vez!

Era difícil uma canastra não acabar em briga. Isso significava que todo domingo à noite um casal fazia um bolo e mandava pro outro, com os dizeres: "Baralho não separa amizades". Foi algo que eles viram num anúncio de viciados em jogo, mas servia pra apaziguar as brigas que normalmente eram culpa da Marta.

O problema dessa vez era que Marta tinha dois valetes de paus e um quatro de ouros, e o resto do jogo baixado. Se sentia até mal quando não vinham cartas ou ela deixava passar a oportunidade. Achava tão injusto seu azar nas cartas! Se ao menos os outros soubessem que ela era a melhor, só não tinha sorte nunca!

Em meio à confusões existênciais da Marta, o Nonato apareceu da cozinha com mais uma garrafa de coca. Esta, dizia ele, era pra quem fosse acabando o jogo. Achava graça nessas coisinhas e, quando via que o resto da mesa não achava nenhuma graça, mantinha-se firme e não deixava ninguém encostar em sua coca.

A Lúcia, que por sua asma mal falava, baixara o jogo. Os olhares inconformados de Marta a perfuraram e ela quase teve vontade de pegar as cartas pra continuar o jogo. Tinha se arrependido de ter batido. Tadinha, mal falava.

Tina jogava rápido e mal tinha progresso. Nem olhava direito pras cartas, não via o que passava.
Depois dela, um espaço vazio na mesa. Cadê o Juca?

- Tira a mão dessa droga desse Estéreo!
- Ô, mana. Ele precisa ser lustrado todo dia.
- Mas não na hora da canastra! Tá com medo de perder?
- Mana, você não ganha há quase dois meses.
- Tá me desafiando, é isso?
- Docinho, já deu, já deu.
- Deu de docinho! E que história de já deu? O que deu? hein?
- Calma, eu não briguei
- Quem tá brigando aqui, quem? Não posso nem jogar em paz que vocês me enchem o saco! Poxa vida.

A conversa normalmente acabava no Poxa Vida de Marta. Era o Poxa Vida que terminava a canastra. Quando sobrava coca, quem pegasse primeiro levava pra casa - desta vez foram os anfitriões. Quando tinha algo bom na Tevê, o Juca ligava o Estéreo mais alto, com medo de perder o crédito.

- Abaixa, Ju
- Ai amor... Tá, tá.

O Juca além de tudo era pau-mandado. Pior do que gostar mais do Estéreo que da própria mulher, pior que ter amigos que falavam "batuta", pior que tudo era ser pau-mandado. Os amigos diziam que ele tirava a gravata quando chegava em casa pra ficar menos elegante que a mulher. Diziam que se ele não respondesse "Sim, senhora" ele dormia no sofá. Mas eram uns fofoqueiros, também.

De todos ali vendo Chacrinha, a Lúcia sentiu falta de alguém. Olhou ao redor e viu abraçados no sofá o Juca e a Tina. Ela meio entediada com a bobageira na Tevê, ele de olho no Estéreo, enciumado. Seguindo, viu o Nonato sozinho, curtindo as piadas que ele tanto adorava - as tais coisinhas em que ele via graça - compenetrado como nunca. Mas, e a Marta? Foi só o tempo de avistá-la à mesa; sem ter tempo de abrir a boca, ouviu a sala encher-se com o grito fino e firme:

- Epa! Você não bateu coisa nenhuma!

A Marta foi arrastada porta afora pelo Nonato. No domingo, o Juca chegou em casa segurando o bolo:

- Viu, amor? Eles são fofos e é só briga de momento.
- Cala a boca, cala.
- Sim, senhora.

Leonard Ziesemer Schmitz

2 Comments:

At 3:18 AM, Anonymous Anônimo said...

Martas e Martas, né Leo?!
Muito bom o texto.

Beijo
Bi e Pati

 
At 8:15 PM, Anonymous Anônimo said...

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